Además de las Posibilidades – Capítulo 15 – “Decepciones, alegrías y cambios”

“Decepciones, alegrías y cambios”

Pensei que minha vida se tornaria um verdadeiro inferno depois do beijo, devido às perseguições que ocorreram logo depois. Fiquei realmente famosa da noite para o dia e, se não por Kito me fazendo companhia no curso, não sei o que teria acontecido. Ele me acompanhava em todo o trajeto de ida e volta, e não se separava de mim um momento sequer durante as aulas. Felizmente, assim como a popularidade veio até mim, desapareceu da mesma forma,  repentinamente. Tudo graças a Julian.

O beijo foi como um fulgor de esperança para mim. Realmente pensei que havia algum significado oculto. Algo que o tempo fosse revelar e que no final tudo se encaixaria. Cheguei a pensar que, a qualquer momento, Julian iria aparecer na minha porta, quase do mesmo jeito que minha memória o tinha guardado, mas com um toque a mais da minha mente criativa e sonhadora para tornar o momento ainda mais esplêndido. No entanto, é claro que eu estava errada. A pura verdade é que, se não fosse pelas fotos e os vídeos na internet, poderia até pensar que tudo foi fruto da minha imaginação. Passei tantos anos sonhando com o dia em que finalmente o conheceria. Que poderia sim, ter idealizado tudo aquilo, afinal minha mente é fértil. Mas para minha felicidade ou azar, foi real. Já não sabia mais o que pensar. Muitas poderiam me condenar por, às vezes, pensar que aquele contratempo se tornou uma fatalidade ao invés de felicidade. Porém só eu vivi, portanto somente eu posso julgar os fatos e a realidade é que, depois do beijo, vivi os piores três meses da minha vida.

Custei a acreditar em Ellen. Ela havia passado todo o primeiro mês me dizendo para me concentrar em mim e nas pessoas a minha volta. Cansou de falar que, para Julian, o beijo foi quase por compaixão. Talvez meu semblante de ansiedade e nervosismo misturado com paixão o sensibilizou a me beijar. Só que, claro que eu preferia alimentar a doce ilusão de que havia algo além. Até porque, analisando friamente, se fosse por piedade, eu preferia nunca ter sido beijada por ele.

Quando conversava com Kate e tentávamos ajustar os nossos pensamentos, ela só dava corda às minhas suposições. Insistia em dizer que teve alguma coisa por trás de tudo isso. Kito se mantinha entre as duas, o perfeito fiel da balança. Não alimentava os meus sonhos, porém também não os ponderava. Ao contrário do que muitos acham, a nossa relação é estritamente platônica. Ele me trata como uma irmã o que só me faz admirá-lo ainda mais. Eu tenho a certeza de que foi Deus que o colocou em minha vida, pois dificilmente aguentaria tudo sozinha. Nesses três meses, ele se tornou meu melhor amigo e porto seguro nesta casa e por isso muitos maldam e nos olham com malícia, pois não nos desgrudamos mais. Kito é o irmão mais velho que toda mulher gostaria de ter e faz eu me lembrar dos meus irmãos. Queria que Cristiano e Nathan fossem ao menos um pouco parecidos com ele. Pensar neles é angustiante. Só sei por Kate que eles estão recebendo o meu seguro desemprego e agora só falta o último mês. Contudo, fora isso, estou sem nenhuma notícia suplementar. Meus pais não têm whatsapp, Cristiano me bloqueou e Nathan não tem celular. A coragem de ligar também me falta. Não por orgulho, mas tenho receio de ser maltratada e prefiro ficar aqui tentando pensar que todo o ódio do meu pai diminuiu um pouco. É  mais saudável para mim manter essa esperança. Prefiro criar essas ilusões do que confirmar o contrário.

E sobre Julian, ele conseguiu destruir o meu coração. Não é exagero, eu estava em pedaços. Não tinha ânimo para mais nada; entrei em uma “depressão” momentânea. Só o curso conseguia me animar a sair de casa e dava pra notar a preocupação de todos comigo. Bem, quase todos! Nicole definitivamente me odeia e nada que eu faça vai mudar isso. Alguns dizem que o santo dela não bateu com o meu, entretanto eu não acredito em nada disso. Só acho que é uma implicância sem fundamento. Também não ligo. Me dou bem com os outros intercambistas, tanto com os da casa quanto com o restante que só vejo no curso. Procuro manter distância de Yuri, pois esse é o meu mecanismo de defesa. Tento ficar o máximo possível afastada dele, não por achar que ele me apresentaria algum risco, e sim porque não quero magoá-lo. Não quero criar nele qualquer expectativa sobre um possível “nós”. Esse é um dos meus defeitos. Quando sei que alguém gosta de mim e não posso retribuir o sentimento, me afasto com intuito de proteger a pessoa. Perdi alguns amigos no Brasil assim e sinto muito a falta deles. Kate sempre achou errado esse meu posicionamento, todavia não consigo mudar isso em mim. O ruim disso tudo foi prejudicar a amizade de Yuri com Kito. Ele realmente achou que estamos juntos e considerou uma traição. Como se ele fosse um “fura-olho”.  Kito tentou diversas vezes explicar a ele e aos outros que somos só amigos, porém eu pedi que desistisse disso, pois infelizmente o prejulgamento ainda persiste. As pessoas têm dificuldade de entender que é possível sim, pessoas de sexo distintos serem amigos, sem se pegarem pelos cantos às escondidas.

Não vou abrir mão de uma amizade como a de Kito para agradar ninguém ou até mesmo para manter meu nome longe das fofocas; não estou ligando para mais nada. Kito foi criado só com mulheres e por isso ele tem um lado sentimental mais desenvolvido, por esse motivo me entende tão bem. Não, ele não é gay, apenas um homem romântico desses que não se encontram por aí e que, se quisessem, fariam qualquer mulher se apaixonar. Lara está perdidamente apaixonada por ele, só que, como não a incentivei a investir no romance, ela também acha que temos alguma coisa. Não sei o motivo disso. Se eu o visse com outros olhos e ele também, não teríamos por que esconder de alguém. Se tentei preservá-la, não foi por não aprová-la, e sim por saber dos interesses de Kito em Ellen, e claro que não podia dizer isso claramente a Lara. Ele confiou em mim para se abrir e me contou que estava apaixonado pela minha amiga mexicana. Se eu soubesse que ela teria ao menos alguma esperança, seria a primeira a dizer para se declarar, mas eu sei que não. Ela é linda; no entanto Kito gosta de mulheres maduras e trabalhadoras e não do estilo consumista e mimada. Quanto a Ellen, bem, ela não se interessava por ele. Era muito negativa quando se tratava de homem. Sofreu tanto com o pai de sua filha, que se fechou. Não consegue acreditar em bons relacionamentos e por isso eu me acho tão parecida com ela. Nesse aspecto, me considero uma pessoa fechada. Agora então, estou definitivamente bloqueada para isso. Na minha opinião, parece até trama de novela mexicana. A vida podia ser menos complicada. As pessoas já podiam nascer sabendo com quem elas vão passar a vida toda. Isso talvez diminuísse a dor e as desilusões amorosas, contudo acho que não teria a mesma graça. Talvez fosse esse o destino de cada pessoa: se apaixonar por alguém que não consegue ao menos notar a sua existência. Assim como Julian não me notou naquele dia, meus amigos também não são notados pelas pessoas pelas quais estão apaixonados. Kate diz que “sempre fazemos alguém de otário e sempre somos otários de alguém”, ou seja, sempre vamos deixar alguém nos amar e não vamos conseguir retribuir da mesma forma. E isso é claro que acontecerá conosco também. É como um ciclo. Queria muito saber quem era a pessoa que fazia de Julian, “gato e sapato”, quem despedaçara o seu coração para que vivesse a vida de forma tão alienada. Será que a mídia mentiu e eles terminaram porque Samantha já estava com o tal modelo Aalemão? Será que ela o deixou em ruínas? Perguntas eu tenho, mas as respostas eu jamais saberei. Em vez de Julian aparecer na minha porta como eu esperava, ele apareceu sim, a cada dia com uma mulher diferente, por isso deixei de ser assunto rapidamente. De certa forma ele me ajudou. Caí no esquecimento da mídia e das pessoas e pude andar sem que me parassem para perguntar se eu era a “garota do beijo”, título que adquiri. Procurava deixar meu cabelo sempre natural, para ajudar a despistar. Como gosto dos meus cachos, isso não era um sacrifício nenhum. Meu martírio constante era não entender o porquê dele ter feito isso comigo. Se eu tivesse apenas entregado o presente, tirado uma foto como uma fã comum, poderia estar vivendo agora e não me afundando nas lembranças. O beijo da minha vida se tornou o meu carma. E doía muito vê-lo se exibindo a cada dia com uma mulher diferente. Não que eu me achasse dona dele por causa de um beijo, mas me sentia igual a todas com quem ele saía, apenas mais uma de uma longa e interminável lista. Portanto concluí uma coisa nesses meses: Ellen estava certa. O beijo foi por pena. Essa é a única explicação que consigo dar, a única que faz sentido.

Nunca fui de ficar sofrendo por causa de homem e de relacionamentos. Meus namoros acabaram por minha culpa, todavia porque eu era sincera comigo e com eles. Não foram muitos, apenas dois, e percebi que nasci para ficar sozinha. Meus pais já queriam se intrometer na relação, achavam que já era para casar e eu me achava nova demais para isso e percebia que não os amava com a intensidade necessária para querer passar uma vida inteira juntos. Fora o receio que tinha de acabar igual a minha mãe, condenada a uma relação manipuladora. Agora estava sofrendo por um homem que não sabia nem da minha existência e que provavelmente nem se lembrava de mim. Que golpe que a vida me deu! Eu observava seu personagem na TV, tão diferente de quem ele era. Claro que tinham muitas coisas em comum, mas Daniel parecia estar apaixonado por Rebeca e eu não consigo enxergar Julian apaixonado daquela forma por ninguém. Esse foi mais um dia que passei trancada no quarto, enquanto todos foram ao Estádio Azteca para assistir ao jogo da seleção do México. Pra mim nada tinha graça desde o ocorrido. Tudo parecia sem cor.

Faltavam apenas três meses para voltar ao Brasil e, tirando o curso de espanhol e as amizades que fiz, me arrependia de ter saído da minha casa. Meus pais estavam certos, eu tinha mesmo que ter colocado os meus pés no chão. Lá, minha vida era mais movimentada do que essa que estava vivendo. Sem contar na saudade que sentia da minha família e dos meus amigos. Também sentia falta de fazer alguma coisa, de me sentir útil. A ajuda de custo que recebíamos era razoável, dava para pagar as cópias, as passagens e outros gastos da casa. Contudo, para acompanhar o ritmo de alimentação dos intercambistas que gostam de almoçar todos os dias na rua após sairmos do curso, estava gastando mais do que devia. Pensei que iríamos cozinhar, dividir as despesas das compras, mas a maioria veio preparada financeiramente para ficar os seis meses. Eu tinha a minha rescisão de contrato, que não era muita, porém planejava voltar para o Brasil com boa parte dela. Preocupava – me com minha família e com o nosso futuro, por isso também evitava sair com eles. Nem todos os lugares para os quais eles iam os gastos eram só com a passagem e eu também não queria falar que estava apertada nesse sentido. Provavelmente alguém iria querer me ajudar e não desejava ser um peso para ninguém.

Enquanto meditava sobre minha vida, fui guardar minha mochila dentro do armário. Como o espaço que tinha era pequeno, tentei enrolá-la para caber e senti algo rígido no bolso da frente. Era o DVD que meus amigos me deram quando deixei o bar para entrar no táxi. Como eu não percebi aquilo antes? E por que Kate não me lembrou? Corri para inserir no notebook que estava em cima da cama e soltei o play. Foi então que pensei: eu não podia ter visto antes, eu precisava ouvir aquilo naquele instante. O vídeo começou com uma gravação que fizemos em uma de nossas viagens para o Sana, há alguns anos. Os meninos tocando violão e a gente cantando “Mais uma vez” do Legião Urbana. Depois emendou um outro vídeo que eles gravaram especialmente para mim, cantando o restante da música no karaokê do bar. No final, cada um gravou uma mensagem de incentivo. Parecia que eles previram aquele momento, como se soubessem que eu precisaria de estímulo para continuar. Claro que chorei e, como estava sozinha em casa, chorei de soluçar. Amava muito Renato Russo e eles sabiam disso. A música parecia ter sido feita pra mim. Peguei aquelas palavras como um impulso para o resto da jornada. “Quem acredita sempre alcança!”. Não podia mais continuar sabotando a minha viagem. O sol voltaria amanhã e eu também precisava voltar! Já não era tempo de ficar me lamentando pelo que fiz ou deixei de fazer; eu precisava de mudança. E tinha fé e esperança que poderia alcançar qualquer coisa que desejasse!

Fui para o banheiro, lavei o rosto e voltei para o computador. Mas desta vez, não para me afundar em minha própria fossa, como estava fazendo dias atrás. Precisava de um emprego e esse era o momento. Por conseguinte, comecei a fazer meu currículo em espanhol. Se vim para esse país com a intenção de aprender espanhol e ganhar conhecimento para retornar ao Brasil e mudar a minha vida, eu faria isso. Não passaria os próximos meses gastando e desperdiçando o meu conhecimento trancada no quarto. Não estava ali à toa, era hora de acordar e agir. Precisava retomar o meu caminho. Continuar no mesmo fluxo que me trouxe até aqui.

[Continua…]


Créditos:

WhatsApp Image 2020-05-07 at 2.56.37 AM
Debora Page

Texto: Debora Page – @escritora_deborapage

Edição: Juliana Rezende – @ju.rezende_

Revisão: Ana Paula Martins

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