Además de las Posibilidades – Capítulo 13 – “La chica del beso”

La chica del beso

Ao sairmos do shopping estávamos desnorteadas e ficamos por um tempo tentando nos encontrar. Ellen conhecia bem o lugar, mas claro que, com tudo que havia acontecido, estava tão abalada quanto eu. Até cogitamos voltar para casa de condução pública, porém, depois de pensarmos melhor, concluímos que seria impossível passarmos despercebidas. Entramos no primeiro táxi que parou. Eu estava com medo das represálias, não estava disposta a dar explicações a ninguém e Ellen tampouco. Senti-me culpada por tê-la envolvido naquela tremenda confusão.

Quando estava de frente para Julian, pensei que seriam os milésimos de segundos mais importantes da minha vida. Como nos filmes, em que o tempo parece passar devagar! Todavia, jamais pensei que acabaria daquela forma. Eu, fugitiva da imprensa e de maníacas que queriam tirar satisfação comigo por ter correspondido ao melhor beijo da minha vida. De fato foi como num filme, só que com um final dramático.

– Manuela, no que você está pensando?

– Não sei! Acho que estou anestesiada com o beijo.

– Foi incrível ver aquilo! Parecia a plebeia e o príncipe encantado.

– É exatamente assim que estou me sentindo. Como em um romance entre uma fã brasileira e seu ídolo mexicano. Ellen, você consegue ter a dimensão de tudo que está acontecendo em minha vida? Eu sempre imaginei que o conheceria, mas não imaginei que ele iria se apaixonar por mim assim, logo de cara.

– Ai, Manu! Desculpa! Mas não se iluda, minha linda! – Disse ela num tom de pena e doçura.

– Então, por que ele me beijou, Ellen? Podia só ter recebido o presente como fez com as outras. Por que ele ficou me olhando daquele jeito estranho?

– Sinceramente, eu não faço ideia! Mas não crie esperança e nem expectativas. Atores são assim mesmo. Talvez fez para aparecer, para ganhar publicidade. Afinal, eles sempre estão em busca de publicidade.

– Não acredito! Eu o conheço, Ellen! Sei que parece loucura, mas eu o acompanho há anos e ele não é assim. Os outros atores até podem ser,  já o meu Julian não!

Eu sabia que o ator dos meus sonhos não precisava disso. Mais fama que ele já tinha era impossível! Eu sentia, no meu âmago, que ele havia reparado em mim. Tudo bem, pode até não ter sido amor à primeira vista como eu gostaria. Só que alguma coisa ele sentiu, não iria me beijar à toa, do nada, sem mais nem menos. Talvez, Kate entenderia melhor o que eu senti. Ela me conhece e ama Julian tanto quanto eu.

Despedi-me de Ellen e fui para casa. Assim que entrei na sala, percebi que o clima não estava muito favorável para mim. Os meninos assistiam à televisão e para minha surpresa, eu era a notícia.

– Olha quem chegou! A garota do beijo! – Disse Yuri, o australiano que havia se declarado para mim no dia anterior, com o deboche escorrendo em cada palavra. Pareceu-me um pouco “dor de cotovelo”. Sei que não tinha motivos, contudo fiquei constrangida com a forma que ele falou.

– Boa tarde, meninos! – Falei enquanto dobrava o sobretudo e o colocava sobre a cadeira.

– Ótima tarde para você, pelo visto!

Ele falou mais uma vez, na tentativa de me alfinetar. Não me contive dessa vez:

– Sim! Magnífica tarde! Não poderia estar sendo melhor! Não preciso nem entrar em detalhes, vocês já estão por dentro do assunto! – Enquanto eu falava, apontei para a TV, tão debochada quanto meu companheiro de casa.

Normalmente, eu não sou assim. Todavia, apesar do beijo, tive uma manhã exausta e estava confusa. Para completar e fechar a minha tarde com “chave de ouro”, as meninas chegaram da rua na mesma hora. Pude ouvir o som do portão abrindo, porém não tive oportunidade de sair da sala antes de ouvir novos deboches. Logo que a Nicole (a francesa que parece me odiar) me viu, se pôs a falar:

 – E aí, garota do beijo! Adoraria um autógrafo seu! Manuela não só encantou os meninos da casa, como também o astro do México! Todos apaixonados por ela.

Começava a me sentir mal naquele lugar. Como se já não bastasse tudo que passei, e o turbilhão de pensamentos que embaralhavam a minha mente, ainda tinha que ouvir aquelas coisas a meu respeito. Eu conseguia até entender o Yuri, porque ele estava convicto de que gostava de mim, portanto poderia ser ciúmes se aquela paixão repentina fosse real. Já Nicole não tinha motivos para tanto sarcasmo! Comecei a perceber que ela não simpatizou muito comigo. Ela parece ser meio egocêntrica e gosta de ser sempre o centro das atenções. Então, para isso, fazia questão de me deixar sem graça na frente das pessoas.

Até então, eu estava mais isolada. Havia saído os dois dias com Ellen e não dei muita atenção para os intercambistas. Porém, não fiz isso intencionalmente, não foi planejado. Foi uma questão de afeição inicial e por isso seria mais difícil eu me aproximar deles. Eu nada disse em minha defesa. Ignorei os comentários e fui para o quarto, deitei na cama e comecei a escrever para Kate pelo whatsapp. Sabia que ela estava trabalhando e só veria as mensagens à noite. Ellen também tinha seus afazeres e eu estava só.

Àquela altura minha mãe já sabia do ocorrido. Como eu sentia falta de ouvir sua voz,  de nossas conversas e até das coisas mais banais! Por mais estranho que pareça, sentia falta até de suas broncas. Eu tenho certeza de que apesar de toda a preocupação comigo, ela estava sentindo a mesma felicidade e euforia que eu, ao mesmo tempo que, provavelmente, compartilhava a surpresa. Eu via o encantamento em seus olhos enquanto assistíamos às novelas de Julian. Sempre deixava escapar, mesmo disfarçadamente, alguns suspiros. Ao contrário de mim, que já era mais descarada quanto a minha admiração por ele. Por outro lado, eu também não conseguia deixar de pensar em meu pai e nos meus irmãos. Eles não devem ter gostado nada da cena! Naquele momento senti como se tivesse realmente cometido um delito. Contudo, logo me dei conta de que aquela autocondenação era ridícula! Foi apenas um beijo! Nada que pudesse ferir minha honra. Claro que não pude deixar de depositar as minhas esperanças nesse beijo, no entanto isso só aumentava os pontos de interrogação e eu continuava sem conseguir entender direito as intenções de Julian.

Fiquei o resto da tarde no quarto, sem almoço e sem nada no estômago. Eu estava sem ânimo para sair da casa e ter que enfrentar novamente aquela situação constrangedora, porém logo a dor de cabeça começou a falar mais alto. Tomei coragem e desci as escadas. Eles haviam feito compras e o árabe cozinhava com empolgação. Sentia-me um peixe fora d’água, não tinha clima de estar ali. Como não tinha contribuído com as compras, fui para o quintal pensar no que eu poderia fazer, quando o angolano se aproximou:

– Manuela, aonde vai?

– Acho que vou ali no restaurante.

– Não faça isso, fique conosco! Nós fazemos questão.

Ele é robusto e chama atenção, seu sorriso lindo com dentes incrivelmente brancos e perfeitos destacam ainda mais a sua beleza. Chamaria a atenção de qualquer mulher, porém o que eu mais admirei em Kito foi sua maneira de falar. Surpreendentemente suave, me pareceu muito sincero e sem malícia, não pude dizer não.

Fiquei sem jeito no início, contudo logo estava conversando com as outras meninas que me perguntavam sobre a manhã de autógrafos e sobre o beijo, não com ironia como Nicole tinha feito anteriormente, mas com tom de curiosidade. A russa, com quem eu quase não havia falado antes, se mostrou a mais interessada na história. Até alguns dos meninos chegaram a participar, inclusive Kito. O restante do dia foi muito agradável e uma divertida experiência. Comemos uma autêntica comida árabe feita por Faruk, que se mostrou um excelente chef.

No dia seguinte fomos juntos de ônibus para o curso. As aulas se iniciaram às 08h, mas como era o nosso primeiro dia e desejávamos conhecer melhor o restante dos intercambistas, chegamos um pouco mais cedo. Foi muito legal conhecer tanta gente, só ficava triste por ter sido a única brasileira a ter essa incrível oportunidade.

Fizemos um teste dividido em três etapas: escrito, de compreensão e por último o oral. Saí-me melhor do que eu esperava, ou seja, meu professor tinha razão quanto ao meu desempenho. Após essas avaliações a turma seria dividida em duas e eu passaria a ser colega de classe de Yuri, como já imaginava, e também de Nicole. Felizmente, Kito e a Lara (a russa que havia gostado da história do beijo.) ficaram na mesma sala que eu. Os demais alunos eu estava começando a conhecer e me aproximava devagar.

As nossas três horas de estudos foram muito motivadoras! Aprendi expressões novas e percebi o quanto eu amo falar espanhol. A turma realmente pareceu estar bem nivelada, o que fez a aula fluir muito bem. Nicole se sentou ao meu lado, todavia não dirigiu a palavra a mim em nem um momento sequer. Só voltei a ouvir os comentários sobre o beijo no intervalo de quinze minutos, que tivemos entre os dois tempos de aula. Um dos estudantes havia ido até a banca de jornal do outro lado da rua e se surpreendeu ao me ver em quase todos os jornais. Eu estava plenamente ciente do ponto ao qual eu chegara. Era a principal notícia do México em menos de uma semana que estava no país. Não pude me irritar, nem me constranger por esse motivo, portanto ouvi calada as brincadeiras e até ri junto com eles, apesar de estar triste com a situação. Se Julian mexia comigo pela TV, imagina o que eu senti quando o beijei!

Aproveitei para ler as mensagens de Kate, que eu apenas tinha visualizado quando acordei:

“Ai, meu Deus!!! Manuela, eu não sei nem o que dizer! Acho que você estava certa, amiga. Nada acontece por acaso. Desde que decidiu aceitar essa viagem as coisas têm acontecido a seu favor, precisava somente dar esse passo. Aqui não passou nada na TV, porém nas redes sociais não se fala em outra coisa. Ainda bem que você não tem mais Facebook, porque leria muitas coisas desagradáveis. Mas não ligue para isso! Eu teria feito o mesmo e todas elas também. É muita hipocrisia falarem tantos absurdos a seu respeito, todas queriam ter tido a mesma sorte que você. Pudera, né? Você linda desse jeito deixou o mexicano apaixonado à primeira vista.”

Ela escreveu um texto enorme, contudo a parte do “mexicano apaixonado à primeira vista” me chamou mais a atenção. Será verdade? Será que Julian havia mesmo se apaixonado por mim? Eu sei que eu não sou feia, mas não me acho tão bonita assim como as pessoas dizem. Sinto-me comum, uma garota normal. Ao contrário de Lara, por exemplo, que em minha concepção tem o biotipo de beleza perfeita. Não encontro nela defeito algum! Seus olhos azuis parecem dois diamantes de tão intensos, e seu cabelo loiro claro na altura dos ombros combina perfeitamente com o seu tom claro de pele. E mesmo que não goste de admitir, Samantha também é o tipo de beleza exótica e deslumbrante. Não sei se o ruivo de seus cabelos é pintado ou natural, mas odeio concordar, são incríveis! Um liso perfeito até a cintura, com uma leve franja na altura dos olhos que realça ainda mais seu olhar. Já eu, não tenho nada que julgo ser diferente ou interessante, não o suficiente para deixar alguém encantado pelo menos.

Passei toda a aula integralmente focada, tentei não ficar pensando no Julian, diferentemente do resto do tempo. Saímos às 11h e fomos todos para o Centro de Coyoacán. Fomos de metrô, ainda bem que não estava só. No Rio era impossível se perder tendo só duas linhas, entretanto no México é quase um labirinto! Muito bem planejado, por sinal. Tem metrô para tudo quanto é lado e são divididos por cores.

Conversávamos dentro da condução e tenho que confessar que achava engraçado ver como cada um fala. Os sotaques carregados e o os diferentes biotipos mostravam claramente que não somos mexicanos. Os dois professores vieram conosco e às vezes eu queria dizer algumas coisas, porém me limitava, pois ainda não sabia expressões e palavras. Era difícil aprender a pensar em outro idioma, mas apesar de tudo, estava me saindo muito bem.

Decidimos almoçar. Eu não costumo comer muito. No Brasil nós fazemos as refeições mais programadas. Já no meu novo país, se eu aderir ao ritmo de alimentação, será impossível manter o meu peso. O café da manhã, por exemplo, é quase como o almoço do brasileiro. Eles comem ovos fritos, feijões, tortilha com carne de porco ou frango e outras comidas que meu organismo não está preparado para comer logo na primeira refeição do dia.

Foram os professores que escolheram o cardápio, e a meu ver exageraram nas variedades. Pediram como entrada uma sopa de fideo. É como a sopa de macarrão que minha mãe fazia só que com temperos mais acentuados e a massa é extremamente fina. Depois vieram os pratos fortes, enchiladas verdes, saladas e quesadillas para acompanhar. Quesadilla é parecido com um pastel, só que é feita da massa das tortilhas fritas. Eu não tinha estômago para tantas coisas, contudo me aventurei a experimentar cada porção.

Nós ocupávamos duas fileiras de mesas e estávamos na mesma formação dos grupos das aulas, a fim de que nos enturmássemos mais com o professor e com os colegas de classe. Ficamos conversando e antes da sobremesa, fui surpreendida pelo toque de alguém em meu ombro. Um rapaz que estava sentado do outro lado do restaurante veio até mim.

– Você não é a garota do beijo? Foi você que beijou o Julian no shopping?

Eu queria abrir um buraco no chão e me enfiar lá dentro. Todos da mesa riram, inclusive o professor. E eu não soube o que dizer. O abordador notou o quão sem graça fiquei e gritou a plenos pulmões dentro do restaurante, chamando a amiga que o acompanhava:

– Guadalupe, olha! É ela mesma! A garota do beijo.

Não conseguia acreditar no que estava acontecendo! Não só a tal da Guadalupe apareceu, mas também outras três ou quatro pessoas se colocaram à minha volta. Parecia que queriam formar uma barreira de intimidação. Faziam-me tantas perguntas, pediam para tirar fotos, como se eu fosse uma artista igual ao Julian. Pedia a Deus em meus pensamentos que me ajudasse a sair daquele lugar, não conseguia lidar bem com toda aquela pressão, fora que ser o centro das atenções jamais foi o meu estilo. Como se fosse por obra divina, segundos depois Kito estava ao meu lado.

– Por favor, deixem-a em paz! – Disse em sua voz agradável, porém firme.

Ele não precisou dizer mais nenhuma palavra, acho que todo o seu tamanho os intimidou e na mesma hora eles se retiraram.

– Você quer ir para casa, Manuela? Eu vou com você se quiser. – Kito me olhava fixamente, transparecendo que eu poderia contar com ele naquele momento de puro embaraço.

– Por favor… – Foram as únicas palavras que consegui pronunciar, em súplica por ajuda.

[Continua…]


Créditos:

WhatsApp Image 2020-05-07 at 2.56.37 AM
Debora Page

Texto: Debora Page – @escritora_deborapage

Edição: Juliana Rezende – @ju.rezende_

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