Además de las Posibilidades – Capítulo 12 – “Versión de Julian”

Versión de Julian

Finalmente, o dia tão esperado! Acordei cedo demais, o horário de estar no shopping era somente às 10h da manhã e já estava cansado de aguardar as horas passarem. Ainda me sentia um pouco confuso e relutava para não pensar muito em Samantha. Estava há cinco dias sem nenhuma notícia. Perguntava-me se ela também sentia a minha falta e como estava vivendo sem mim. Eu pensei que seria mais fácil me desprender, mas nos momentos em que ficava sozinho suas lembranças me sufocavam e eu me odiava por isso.

Aproveitei o tempo livre para definir de uma vez por todas a fragrância do novo perfume que seria lançado em meu nome. Eram todas incríveis, porém uma me chamou a atenção e achei que se identificava mais comigo. Seu cheiro era bastante peculiar, o aroma amadeirado à base de canela. Muito exótico, diga-se de passagem! Parecia combinar com a minha nova vida e com a parte de mim que eu sabia que existia, a parte intensa. Antes eu era destemido, vivia o momento sem pensar nas consequências dos meus atos. Dizia que o meu lema era “Carpe Diem”: aproveitar ao máximo o agora e apreciar o presente. E era esse o lado que eu precisava desenterrar definitivamente, para que pudesse me redescobrir. Parar de pensar nela era o primeiro passo para a mudança que queria para mim.

As horas se passaram e comecei a me arrumar. Estava inquieto! O que diria a todas que compareceriam? Eu queria que o momento fosse especial para elas, assim como seria para mim. Trataria todas como gostaria de ser tratado. Senti o nervosismo acelerar o meu coração.

Rafael havia dito que seria melhor que fôssemos em seu carro e, como eu não estava com vontade de dirigir, concordei de imediato. Passou em meu apartamento por volta das 9h e durante todo o percurso me informou como procederia o evento. Também me orientou sobre como achava que eu deveria me comportar.

– Julian, por favor! Lembre-se de que temos um cronograma para o dia. Não vá demorar muito! Cumprimente, receba o presente, tire uma foto, autografe o que tiver que autografar e, próxima!

– Não dá para ser tão seco assim, Rafael! Você precisa entender que esse momento é importante para elas. E eu não sou uma máquina!

– Eu sei, Julian! Mas você divulgou o evento. Imagine como deve estar o shopping! Abarrotado de fãs! Precisa medir o seu tempo, não pode ficar batendo papo com todas elas, tem que ser objetivo.

Quando Rafael me alertou sobre a quantidade de fãs que estariam no evento, achei um grande exagero. Afinal, eu havia divulgado na noite anterior, justamente pensando no pouco tempo que teria para recepcioná-las. Imaginei que assim poucas conseguiriam ir, pois não teriam sido avisadas com antecedência. Eu estava lidando com sonhos e não queria ser rude a ponto de ter que me apressar para cumprimentá-las e muito menos desapontá-las. Cheguei a pensar que teria o mesmo número de pessoas do dia da gravação na rua, todavia estava completamente enganado. Ao chegarmos, Rafael estacionou na vaga que separaram para nós. Com isso, passamos pela entrada principal e fiquei espantado com o tamanho da fila. Não conseguia enxergar o início dela! Sabia que vinha de dentro do shopping, porém ocupava boa parte do estacionamento. O desespero tomou conta de mim, como eu conseguiria equilibrar o pouco horário que tinha com a multidão de pessoas que estavam ali por minha causa?

– Rafael, você sabia que estava assim? Por que não me falou?

– Julian, era de se esperar! Dia da mulher, você e autógrafos. O que imaginou?

– Nossa, eu nunca pensei que teria tanta gente! Como vai ser? Não vai dar tempo… – Disse aflito.

– Você precisa fazer o que eu te falei. Seja o mais breve possível! Claro que você não vai conseguir falar com todas, mas ao menos com boa parte delas.

– Você fala como se isso fosse fácil. Elas vão me odiar! Tínhamos que ter nos programado melhor. Você bem que podia avisar ao Edgar que vou precisar passar o resto do dia aqui.

– Não é assim, Julian. Você sabe que a gravação de hoje é importantíssima e além do mais, já negociei com o shopping, eles terão outras programações depois.

Eu não estava preparado para decepcionar novamente minhas fãs, no entanto precisava concordar mais uma vez com Rafael. Não teria condições de atender todas elas. Se eu soubesse que seria assim, teria feito antes algum sorteio pela internet. Mas jamais pensei que em plena quarta – feira, elas parariam suas vidas para me ver. Sinto um imensurável carinho por cada uma, mesmo sem conhecê-las.

Antes de iniciarmos a sessão de autógrafos, conheci a coordenadoria de marketing. Realizei duas pequenas entrevistas para dois jornais, me limitando a não falar sobre Samantha. Perguntaram-me o que achei sobre ter mais de mil fãs à minha espera e ao responder tal pergunta, tentei, por antecedência, me desculpar por não conseguir atender todas. Depois fui direcionado para o local, a imprensa estava em peso à minha volta. Colocaram uma mesa para que eu pudesse autografar os CDs, blusas e tudo mais que aparecesse. Atrás de mim havia um banner gigante com uma montagem minha desejando um “Feliz Dia da Mulher!” (Que por sinal, achei de péssimo gosto!), e em volta da foto, ícones de milhares de patrocinadores. Como Rafael não viu aquilo antes? Se não fosse a pressa que eu estava para iniciar logo, reclamaria da imagem!

Estava tão feliz, apesar da correria!  Ainda tinha esperança que multiplicaria as três horas que eu tinha disponíveis. Tentava demorar o menos possível com cada uma, para fazer render o tempo. Elas pareciam entender isso. Eram tantos abraços, beijos, flashes, presentes. No início eu tentei abrir a maioria deles, porém isso tomava muito tempo e Rafael vinha logo me apressar. Depois consegui me adaptar e me limitei a dizer que leria as cartas em casa e veria os mimos depois. Ganhei cartas gigantes, dessas que vêm em rolo; diversos tipos de ursos de pelúcia… Todavia, alguns presentes me chamaram mais a atenção, como uma cueca vermelha com o nome da menina escrito. Fiquei imaginando o que mais teria naqueles embrulhos!

Eu percebi, pela forma de falar, que muitas não eram mexicanas. Algumas não falavam espanhol. Como eu dominava o inglês, consegui me comunicar bem com as que falavam o idioma. Já o português, mesmo parecido com o espanhol, era de difícil compreensão para mim.  Apesar do meu grande interesse por músicas brasileiras, acho a língua portuguesa bem complexa e, geralmente, preciso pesquisar suas traduções.

As horas pareciam voar e a fila, por sua vez, não andava muito. Eu estava um pouco cansado de ficar em pé e não tinha muito a dizer, pois elas chegavam até mim alvoroçadas e eu apenas tentava controlar o tempo. Procurava ser eu mesmo, mantendo a gentileza e educação. Certas fãs me deixaram bem sem jeito, porque tentavam me apertar e me apalpar. Percebi que a mesa estava ali, estrategicamente, no intuito de evitar que conseguissem isso.

Fui informado por Rafael que teria tempo disponível somente para as próximas dez pessoas. Apesar de tudo, novamente não tive como contestar, mesmo sabendo que desapontaria mais da metade das fãs que ali me aguardavam por horas.

Despedia-me de uma fã, quando olhei para a escada rolante. Fiquei sem reação, tive a sensação de que o chão se movimentava sozinho, como se tudo girasse depressa. Pouco depois, outros estímulos tomaram a frente do meu corpo. Fiquei alucinado, a raiva me dominou. Ela estava lá, com outro. Fez de propósito! Senti o meu sangue ferver, a veia em minha testa pulsava descontrolada. Minha vontade era de ir até lá e socar a cara do imbecil, mas percebi que seria uma grande idiotice. Heitor estava coberto de razão, ela estava vivendo! E parecia estar vivendo bem demais para o meu gosto. Atracada daquele jeito, eu não sabia onde terminava Samantha e iniciava o loiro “almofadinha”. Eu ainda tinha consciência do local em que estava e de toda a mídia que estava ali, à minha volta, observando cada movimento. Por isso me controlei ao máximo para não externar a minha fúria. No entanto, eu não ficaria por baixo. Se ela me queria fora do sério e esperava um vexame de minha parte, estava seriamente enganada.

Outra fã estava em minha frente, a me olhar intensamente como se quisesse me decifrar. Ela era diferente, não parecia ser mexicana, apesar de falar muito bem o espanhol. Disse-me alguma coisa sobre nervosismo e sobre estar sem palavras. Rafael também falava algumas coisas por trás de mim. Acho que era para que eu andasse logo ou algo do tipo. Entretanto, eu estava compenetrado em mim mesmo. Por isso eu ouvia tudo o que o meu assessor e a moça diziam, porém não escutava nada, não conseguia compreender nenhuma palavra captada. Meu sangue ainda fervia e a sede de pagar com a mesma moeda era incontrolável.

Peguei de suas mãos uma caixa, muito pesada a propósito, e coloquei ao lado. A mesa estava entre nós e eu sabia do risco que eu corria de ficar sem graça em plena rede nacional se ela não reagisse como eu esperava, todavia qualquer coisa que eu pudesse fazer para me vingar, eu faria. Ainda me olhava compenetrada, seus lindos olhos castanhos brilhavam. Era como se quisesse chorar, acredito que de emoção. Parecia receosa, esperando para ver o que eu estava prestes a fazer. Eu não disse nenhuma palavra, só me inclinei e a beijei, e ela retribuiu. Foi um beijo rápido, mas doce, carinhoso e até um pouco tentador.

Senti Rafael me puxar e fui obrigado a encerrar o momento. Eu sei que minha postura não foi correta. O que aquela moça pensaria agora?!

Não tive como falar com ela, logo se iniciou um grande alvoroço ao meu redor. Sendo bem honesto, tentei avistá-la em seguida, mas foi impossível. Ela se misturou à multidão, e apesar de eu ser bastante observador, não tive tempo e nem cabeça para reparar bem em sua fisionomia.  Contudo, pude ver mesmo que de longe a reação de Samantha. Tenho que admitir que o plano, apesar de ter sido calculado de última hora, saiu melhor do que o esperado. Sua expressão facial era de irritação, apesar de tentar demonstrar o contrário.  Eu procurava não olhar muito em sua direção para não chamar a atenção. Tudo que eu menos queria naquele momento era que algum fotógrafo a visse.

Pude ouvir gritos e até choros de outras fãs que decepcionei. Meu assessor também parecia estar irritado comigo.

– Julian, melhor irmos embora! – Disse me fitando com uma expressão séria.

Não tive condições de discordar. Apesar da segurança do shopping estar em peso nos escoltando até a saída, ainda havia fãs e repórteres nos perseguindo. Assim que nos acomodamos no carro, Rafael deu a partida para sairmos do estacionamento, e se pôs a falar:

– Você vai me desculpar! Sei que sou apenas seu assessor e que não deveria me meter nisso. Mas tenha santa paciência, Julian! O que deu em você, homem? Estava tudo indo tão bem. Por que fez aquilo? Agora terá sua foto e da mocinha em tudo quanto é jornal. Só falta a Samantha aparecer e fazer um barraco por conta disso.

– Não me fale o nome dessa mulher. Eu sei que fui impulsivo!

– Impulsivo, Julian? Você nem esperou o “defunto esfriar no caixão” e já saiu beijando a primeira bonitinha que apareceu.

– Rafael, você não sabe o que está falando.  Pra toda ação existe uma reação, lembra? Então… Se eu fiz isso, foi porque me deram motivos!

– Deram? Como assim?

– Ela estava lá! Com aquele modelo alemão, sabe quem é? Um loiro de olhos claros, um tal de Heinrich Schermann.

– Lá? Onde? Você está se referindo a Samantha?

– Quem mais seria? Ela sim que não deixou o “defunto esfriar”. Estava lá atracada com ele perto da escada. Fez de propósito, queria me ver fora do sério. Mas eu não dei esse gostinho a ela. Agora quem terá que engolir a seco isso tudo é ela!

– Agora eu estou começando a entender. Foi tudo uma vingança! Precisava ter feito isso logo hoje, Julian?

– Muito fácil me julgar, Rafael. O que você faria em meu lugar?

Deixei-o sem palavras por alguns instantes. Mas logo a discussão voltou a tomar força e durou quase todo o trajeto até a emissora. Entretanto, Rafael não podia me condenar, qualquer um teria reagido de forma precipitada se estivesse em meu lugar. Talvez agissem de forma até pior!

Quando chegamos à Televisa, já pude notar os comentários pelos corredores. É impressionante a velocidade da informação! Mais uma vez eu era o alvo das fofocas e não podia culpar ninguém por isso. Desta vez eu havia “causado” e tudo graças a Samantha. Todavia, estava certo de que para uma coisa aquilo tudo me serviu: Por fim, meu lado “Carpe Diem” se desenterrara. Eu estava de volta à ativa e, dali por diante, seria impossível algo ou alguém ser capaz de me parar!

[Continua…]


Créditos:

WhatsApp Image 2020-05-07 at 2.56.37 AM
Debora Page

Texto: Debora Page – @escritora_deborapage

Edição: Juliana Peterson – @julianapeterson22

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