Además de las Posibilidades – Capítulo 11 – “Versión de Manuela”

“Versión de Manuela”

O passeio havia sido maravilhoso, mas estava cansada e louca para tomar um bom banho. Ao entrar em casa, percebi o silêncio. Todos haviam saído, exceto o Australiano. Era notório que ficou constrangido ao me ver e, pudera, os seus comentários sobre mim no quarto, na noite anterior, foram os mais audaciosos.

– Olá, boa tarde! – Disse colocando as sacolas de compras sobre a mesa da sala.

– Boa tarde! Nem vi você pela manhã. Madrugou? – Ele falou se aproximando.

– Quase isso. Estava ansiosa para sair, fui ao Centro Copilco el Bajo. E você, o que fez de bom?

– Eu estava muito cansado para sair, não tive condições de acompanhá-los. Fiquei aqui estudando um pouco. É muito difícil o idioma para mim e como a turma será dividida pelo grau de conhecimento, estou torcendo para ficar na mesma que você. – Definitivamente ele era audacioso.

– Aonde eles foram? – Falei tentando fingir que não escutei o que ele havia acabado de dizer.

– Não sei ao certo, mas saíram todos juntos. Imagino que devam ter ido até o Centro também.

– Bem, eu estou cansada. Vou tomar um banho e dormir.

Na mesma hora em que fui pegar as sacolas da mesa, ele segurou minha mão. Dessa vez fui eu fiquei extremamente sem graça.

– Desculpa Manuela, eu sei que nós nos conhecemos ontem. Mas acredita se eu disser que me apaixonei por você? Eu sei que ouviu as coisas que eu disse a seu respeito. Mas é a mais pura verdade.

– Desculpa. Eu não sei nem o que dizer a você. – Falei com olhos arregalados, totalmente paralisada diante do desabafo dele.

– Não precisa dizer nada. Eu só precisava que soubesse. Não queria que pensasse o pior de mim. Se eu disse aquelas coisas foi porque eu realmente senti algo especial por você.

Eu estava tão sem jeito, realmente não esperava que isso fosse acontecer. Eu não sabia nem o nome dele, e ele estava ali, na minha frente, se declarando. Por que essas coisas tinham que acontecer justo comigo? Logo eu que fugia de relacionamentos. O que eu menos queria era magoar alguém, ainda mais uma pessoa com quem teria que conviver pelos próximos seis meses. Pedi que me desculpasse, pois não estava buscando me relacionar com ninguém no momento. Ficamos conversando por um tempo. Ele pareceu entender meu posicionamento, apesar da grande dificuldade que tínhamos com o idioma, às vezes era muito difícil a compreensão. E sobre o que ele falou a respeito das duas turmas do curso, provavelmente ficaríamos na mesma sala. Eu não sabia como estava o grau de conhecimento dos alunos das outras casas, mas poucos que estavam ali conseguiam se comunicar. Nessas horas eu só conseguia me lembrar do meu professor. Bem que ele falava que eu estava melhor do que imaginava.

Fui para o quarto, guardei as roupas que comprei no armário e me tranquei no banheiro. Deixei a água quente cair sobre meus ombros e aproveitei o barulho do chuveiro para chorar sem que ninguém ouvisse. Eu não queria admitir, mas estava me sentindo muito culpada pela forma com que saí do Rio. O olhar de decepção de minha mãe não saia dos meus pensamentos. Como será que eles estavam sem mim? Tinha medo de ligar e me sentir ainda pior. E se meu pai que atendesse, o que eu diria? O conhecia bem o suficiente para saber que o que dissera no aeroporto era a mais pura verdade, ele jamais me perdoaria.

Sai do banho, coloquei um moletom velho que adoro usar para dormir e fui ligar o notebook. Queria desabilitar minhas redes sociais, não ficaria postando fotos da minha viagem e da minha vida como fazia quando estava no Rio. Não sai de casa em uma situação favorável com meus pais e não me orgulho disso, apesar de não me arrepender da escolha que fiz. Tenho consciência que não será nada agradável as pessoas me perguntando sobre minha vida e sobre o que aconteceu, pois na altura do campeonato, certamente sou o assunto do bairro. A fofoca lá é bem rápida.

Ao entrar no Facebook, não pude deixar de olhar as notificações, e todas as páginas de fã-clubes que eu fazia parte falavam sobre o mesmo assunto: manhã de autógrafos de Julian. Comecei a ler os comentários e rapidamente fui para o perfil dele. Obviamente o seguia, só que infelizmente ele não aceitava ninguém como amigo. Imagino que se assim ele fizesse, precisaria de ao menos umas dez contas diferentes para caber sua infinidade de fãs.

Realmente estava lá. Ele estava convidando todas para uma manhã de autógrafos no Shopping Centro Santa Fé. Na mesma hora coloquei no Google maps para traçar a rota e fiquei totalmente confusa. Não sabia se teria metrô para lá ou se eu precisava pegar ônibus, mas tive a certeza de que eu chegaria de qualquer forma. Nem que precisasse gastar todo o peso que havia trocado no Brasil com táxi. Estava tão eufórica com o fato de que, finalmente, o veria em carne e osso!!! Sabia que isso aconteceria uma hora, mas jamais imaginava que seria tão rápido.

Comecei a planejar como seria esse momento. Eu entregaria o meu presente, tiraria uma foto e diria o quanto o admirava. Sabia que todos os anos de espera e sonhos agora iriam valer totalmente a pena.

Não me contive, precisava contar para alguém. Saí pela rua do jeito que estava e fui até o restaurante. Ellen estava atendendo um cliente, e todos me olharam estranho. Eu já tinha cara de gringa, vestida daquela forma então, é claro que não passaria despercebida.

– Olá Manuela. – Disse enquanto colocava a bandeja sobre o balcão.

– Ellen, desculpa vir aqui te atrapalhar. Mas é que não poderei ir com você até o Centro de Coyoacán, pois preciso ir até a Cuajimalpa de Morelos no shopping. Você conhece?

– Sim, claro. Mas você nem conheceu Coyoacán direito, por que já quer ir para outra delegação?

– Lembra que eu te disse da minha paixão por Julian? Então, amanhã terá uma manhã de autógrafos com ele.

– Nossa, que legal. Eu posso ir com você, se quiser.

– Sério? Que ótimo! Claro que eu quero. Seria maravilhoso ir com alguém que conhece. Então a gente se vê amanhã no mesmo horário aqui na rua.

– Tudo bem! Nos vemos então.

– Não vou mais atrapalhar o seu serviço. Novamente, obrigada. – Falei já me retirando do estabelecimento.

Voltei para a casa e para o quarto, precisava dormir. Queria estar bem disposta e acordar bem cedo no dia seguinte. Nem vi as meninas chegarem do passeio. Acordei às 5h da manhã e aproveitei que estava com tempo para alisar meu cabelo com a chapinha, queria estar bem apresentada. Tentei caprichar ao máximo no visual, mas como estava frio não tinha muitas opções. Não quis usar calça jeans, pois julgava ser muito comum. Coloquei minha meia calça grossa, ela ajudava a esquentar e por cima um short preto e a blusa do Mickey que eu amava e para incrementar e ajudar a esquentar o meu sobretudo e um cachecol, e nos pés o meu inseparável all star branco. Sei que outra em meu lugar, usaria outro tipo de roupa, talvez mais ousada, mas eu sou assim e gosto do meu estilo. Estava me sentindo confortável e bonita, e o que importava era que veria o amor da minha vida. De resto, nada importava.

Sai de casa quase que na ponta dos pés com a caixa que eu havia feito nas mãos. Fiquei esperando por uns dez minutos Ellen aparecer, queria chegar cedo no shopping. Enquanto a aguardava coloquei o chip que eu tinha comprado no dia anterior e testei ligando para o número dela.

– Alô – Atendeu com a maior voz de sono.

– Ellen, estou aguardando aqui na rua. Você poderá ir comigo?

– Desculpa, Manu, eu me esqueci por completo. Vou sim, me dê somente alguns minutos para me arrumar que já te encontro ai.

– Mas e sua filha?

– Ontem saí tão tarde do restaurante que ela acabou ficando com minha mãe. Não se preocupe! Em dez minutos eu estarei ai.

Claro que nenhuma mulher consegue se arrumar em dez minutos, isso é uma grande utopia. Vinte minutos mais tarde ela apareceu. Para compensar o atraso, decidimos ir de táxi. Impressionante a discrepância de valor. Paguei 80,00 pesos na corrida, ou seja, mais ou menos uns 17,00 reais. Com esse valor no Brasil eu não chegaria nem na metade da distância. Estava tão feliz, mas ao entrar no shopping a decepção ficou nítida em meu rosto. A fila estava ocupando boa parte do estacionamento do shopping. Acho que nunca vi tantas mulheres em minha vida. Tinha mulheres de todas as idades, inclusive crianças e até alguns homens acompanhando.

Era muita fã para um só homem. Tentei pensar positivo, no entanto, confesso que pensamentos negativos me confrontavam o tempo todo. Sempre vinha em minha mente a possibilidade de não conseguir falar com ele. Eram 8h da manhã e ele só chegaria às 10h. Confesso que o desespero me abalou por completo em alguns momentos. Era a oportunidade da minha vida, mas também de todas as outras ali presente.

O tempo foi passando. Já estávamos dentro do shopping e ele já tinha chegado e começado a recepcionar as fãs. Eu estava cansada de ficar em pé, era muito desconfortável, ainda mais com o peso da caixa. Mas agradecia a Deus o tempo todo por não estar na pele de milhares que estavam de salto alto. Julian parecia querer dar atenção a cada uma e parecia que a fila não se movia.

– Manuela, não é por nada, mas você precisa ir preparando o seu coração caso não consiga falar com ele. – Disse Ellen tentando me dar uma injeção de realidade.

– Ai, nem fala isso, por favor! Essa hipótese está fora de cogitação. – Tentei focar na minha esperança.

– Estou falando para o seu bem. Estamos há uma hora aqui dentro e ainda não consigo nem avistá-lo de tantas mulheres que têm na nossa frente.

– Ellen, eu vou vê-lo! Eu sinto isso dentro de mim! Até agora tudo tem dado certo pra mim então sei que isso está traçado no meu destino. Eu só saio daqui quando tirar uma foto com ele e entregar essa caixa. – Disse, percebendo que ela notava minha determinação.

Não queria demonstrar minha preocupação, mas claro que a dúvida era grande e sabia que ela estava certa. Julian não ficaria ali o dia todo para falar com todas as fãs. Talvez todo o esforço que fiz para chegar até ali serviriam apenas de experiência. Mas não era justo! Nadar, nadar e morrer na praia.

As horas foram passando, muita movimentação no shopping, repórteres para tudo quanto era lado. Acho que foi o dia da mulher mais movimentado do século. Comecei a sentir aquele frio na barriga quando consegui enxergá-lo. Ele é ainda mais perfeito pessoalmente. Sua barba para fazer o deixava ainda mais sexy. Usava uma calça jeans escura com uma blusa branca social e um blazer azul marinho, não conseguia ver o pé porque a mesa estava na frente para atrapalhar minha visão. Ellen ria de mim, pois não me continha quieta. Todas as outras fãs gritavam, eu até queria fazer o mesmo, mas estava nervosa demais para isso e ficava andando de um lado para o outro no mínimo de espaço que eu tinha.

– Ellen, como que eu estou?

– E precisa perguntar? Você parece artista de cinema. Acho que eu nunca vi alguém mais bonita.

– Ah, eu estou falando sério!

– E acha que estou brincando, Manuela?

Ellen realmente soube levantar a minha autoestima. Estava começando a amar aquela mulher. Sabia que ela só estava sendo gentil, até porque não estava nada mulherão para me parecer com uma artista, mas não mudava o fato de que a gentileza dela me deixava mais corajosa. Mais uma hora e meia se passou desde que estávamos ali na fila e agora sim eu tinha a certeza que eu falaria com ele! Parecia mentira, a metros do homem da minha vida! Estava tão nervosa e cansada de segurar aquela caixa que agora parecia estar mais pesada que nunca. Eu quis ser original no presente, mas sentia literalmente o peso da minha originalidade. Faltavam três fãs para chegar a minha vez e um homem veio a nossa direção para anunciar que Julian não poderia ficar mais e que só atenderia as próximas dez fãs. O alvoroço na fila foi terrível. As fãs começaram a chorar e eu sentia o desespero delas como se fosse comigo. Poderia ter sido eu ali no lugar delas.

– Que sorte a nossa, Manu!

– Nem me fale, mais um pouco nós que iríamos para casa chorando sem falar com ele.

– Bem que você disse que o destino estava a seu favor. Graças a você, também vou tirar uma foto com Julian. – Disse Ellen animada

– Realmente, a esperança é a última que morre, Ellen. E eu tenho esperança por nós duas quando se trata de Julian.

Finalmente a minha vez! Enquanto a menina da frente se despedia, tentava conter a tremedeira. Fui rapidamente para a frente da mesa, não podia perder um segundo sequer. Tinha luzes de todos os lados em nossa direção, mas não estava me importando com nada. Ele me olhava atentamente. Sei que parece loucura, mas a princípio era como se realmente estivesse querendo me decifrar, fiquei sem reação. Queria dizer algo, mas estava assustada com a forma com aqueles olhos grandes e castanhos me olhavam, sua fisionomia era triste, como se eu estivesse fazendo algo errado. O nervosismo agora sim era maior, precisava reagir. Coloquei a caixa sobre a mesa e arrisquei-me a falar:

– Oi Julian, eu esperei tanto por esse dia que agora não tenho palavras para expressar o que estou sentindo. Parece mentira, não consigo acreditar que estou aqui diante de você. Fiz esse presente para você e espero que goste.

Pensei que ouviria sua voz, mas nada aconteceu. Ele então pareceu despertar de um sono profundo. Se inclinou por cima da mesa, empurrou o presente para o lado e me puxou, me deixei ser guiada, queria saber o que viria depois. Foi então que ele me beijou, seus lábios carnudos pareciam se encaixar perfeitamente com os meus. Eu não tinha forças para me afastar e eu não quis me afastar, ao contrário, queria que aquela mesa não estivesse entre nós. Minhas mãos suavam frias e meu pêlos estavam todos arrepiados. Eu já era apaixonada antes, mas o que senti ali foi totalmente diferente. Parecia que o beijo anestesiou cada parte do meu corpo. Minhas terminações nervosas literalmente fritaram. Senti literalmente o meu corpo flutuando, a mesma sensação dos sonhos. O fato é que realmente pensei que estava sonhando, mas foi o beijo mais real da minha vida. Senti ele se afastar repentinamente e não tive oportunidade de fazer qualquer pergunta que fosse. Muitas pessoas que estavam na organização do evento vinham em sua direção, enquanto que por outro lado alguns repórteres começaram a me rodear. Sentia a infinidade de flash e inúmeras perguntas, estava perdida. Me senti sozinha, perdida. Ele me devia ao menos um porquê ou alguma explicação. Mas em um piscar de olhos o cenário já não era mais o mesmo e a caixa também não estava mais sobre a mesa. Pareceu uma cena de filme, tudo desapareceu da minha frente em flashes de segundo. Senti alguém me puxando pelo braço, finalmente um rosto conhecido! Era Ellen, que gritava para que corrêssemos.

Não sabia o motivo pelo qual estava correndo, mas tinha a certeza de que não poderia permanecer ali nem mais um minuto. Fomos praticamente perseguidas, não só pela imprensa como também pelas fãs alvoroçadas. Tirando o fato de ter retribuído o beijo, não conseguia entender o que eu fiz para que ele reagisse dessa forma. Agora, eu era a culpada do evento ter encerrado antes do esperado, mas pudera, quem em meu lugar não corresponderia a um beijo de Julian?

Capítulo 12


Créditos:

WhatsApp Image 2020-05-07 at 2.56.37 AM
Debora Page

Texto: Debora Page – @escritora_deborapage

Edição: Juliana Rezende – @ju.rezende_

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