Además de las Posibilidades – Capítulo 10 – “Los cambios son siempre difíciles”

Los cambios son siempre difíciles

Eu achei que não conseguiria ficar ali, sozinho novamente. Apesar das roupas dela não estarem mais, eu ainda sentia seu cheiro impregnado em cada canto. Almocei, lavei a louça e comecei a faxinar. Não queria mais suas lembranças me atormentando. Queria, na verdade, a minha vida de volta.

Como pude estar cego durante tanto tempo e deixá-la me persuadir daquela forma? Somente naquele momento consegui perceber o tempo que perdi em uma relação egoísta e manipuladora. Entendi que nós não tínhamos mesmo futuro juntos. Combinávamos no sexo, isso não tinha como negar. Todavia, que tipo de relação sobrevive só de atração física e sexual?

Sua aparência me dominou, mas pudera, qual homem em sã consciência não se encantaria por uma ruiva linda de olhos azuis? Sem mencionar o seu corpo com curvas ousadas. Apesar do seu gênio difícil, à primeira vista seria impossível mencionar um defeito. Eu mesmo passei meses do nosso relacionamento acreditando ser sempre o único errado da história. Não conseguia perceber como seu poder de persuasão se apoderava de mim lentamente.

Em cada canto do apê que limpava, encontrava algum objeto de Samantha jogado. Comecei a juntar e guardar em uma mala e parecia me desfazer de um fardo. Já não conseguia mais enxergá-la com a ternura de antes, estava consumido pela raiva e não queria mais nenhum indício de suas lembranças.

Animei-me para trocar alguns móveis de lugar e retirei todos os objetos de decoração que deixavam o ambiente com ar feminino. Se eu decidi iniciar uma nova vida, precisava mergulhar de cabeça nas mudanças.

Passei quase toda a tarde envolvido com a arrumação e limpeza do apartamento. E como me fez bem! Evitei o tempo todo deixar que meus pensamentos se voltassem para ela, até na hora de escolher a roupa para a tão esperada festa de inauguração da novela. Geralmente, ela quem fazia isso por mim. Ela se interessa muito por moda e realmente entende do assunto. Sempre a incentivei a investir seu tempo em uma especialização nessa área. Entretanto, a verdade é que tivemos criações bem diferentes. Meus pais me educaram muito bem e despertaram em mim a consciência a respeito da necessidade de estudar e trabalhar. Já Samantha sempre teve tudo nas mãos. Sua vontade sempre predominou e isso a tornou uma pessoa fútil. Não a culpo por isso, e sim aos seus pais.

Precisava devolver o quanto antes todas aquelas coisas dela, que encontrei esquecidas em meu apartamento durante a faxina e não queria ser obrigado a vê-la. Ao menos não enquanto tudo estava tão recente. Quando terminava de me arrumar, Heitor chegou ao meu apartamento. Faltava meia hora para a festa e ele se propôs a me ajudar. Colocamos tudo dentro de seu carro e fomos até o prédio dela, o qual por sinal era sentido contrário à emissora. Não podia esperar para fazer isso em outra hora, assim eu me veria livre de uma vez por todas das suas recordações.

Paramos em uma rua próxima ao prédio. De dentro do carro consegui avistar um paparazzo, que parecia estar de guarda na porta principal do edifício. Ajudei meu amigo com as malas até certa distância, mas não quis me aproximar muito. Heitor, a fim de despistar, entrou no edifício pela portaria de serviço. E para minha surpresa as bagagens ficaram na portaria, pois Samantha não estava em casa. Tentei fingir que aquilo não me incomodou, porém para Heitor não havia como eu esconder nada, me conhecia melhor do que qualquer um.

Chegamos ao evento com quarenta minutos de atraso. Edgar não se importou, já Salvador ficou bastante aborrecido.  Alegou que deveríamos ter sido os primeiros a chegar. Ele era um homem muito incisivo e, às vezes, até um pouco rude. Contudo, Heitor e eu sempre conseguimos lidar bem com esse tipo de situação. Logo estávamos todos conversando normalmente e até fizemos com que ele risse de vez em quando.

A festa estava melhor do que o esperado. Mesmo sendo dentro da emissora, algo surpreendente, porque geralmente um salão é alocado para esse tipo de evento. Edgar resolveu fazer uma festa temática, sem comunicar a ninguém. Por sinal muito bem decorada, com estilo tipicamente mexicano. Coisa que só vemos mesmo em datas comemorativas, ou em restaurantes que preservam a nossa cultura. Havia muitas rendas coloridas espalhadas pelas mesas do salão improvisado. Lanternas penduradas, flores de diversos tipos e fitas de cetim também compunham a decoração. Quase não se conseguia ver o teto, que estava coberto por papel picado. O papel picado é uma tradicional decoração mexicana, se parece muito com bandeiras. Além de muitas luzes, e claro que não poderia faltar os Mariachis para tocar e cantar para a gente, alegrando ainda mais a nossa noite.

Pâmela estava presente, mas como me atrasei, ela havia escolhido outro homem para flertar e por sorte tinha dado certo. Conheci todo o elenco da novela e passei um bom tempo conversando com Pietra, Rafael e Heitor. Rafael, a princípio, não faria parte da produção, todavia Edgar já o conhecia do meio artístico e me perguntou se poderia convidá-lo para dar um apoio ao projeto. Claro que não me opus, ao contrário, eu conhecia a dedicação e seriedade com as quais Rafael levava seu trabalho, além de todo seu conhecimento na área. Sabia que para ele também seria muito importante aquela experiência.

 Devolver as coisas de Samantha, realmente, havia me feito bem. Eu estava irreconhecível! Acho que as pessoas aguardavam um Julian triste e sério, porém eu estava feliz. Num estado quase zen. Há tempos não me sentia assim. Pude aproveitar as pessoas, o momento, sem a preocupação que ficava quando ela estava ao meu lado. Além de conversar sobre assuntos diversos, não nos limitamos a falar só sobre a novela. Foi muito agradável!

Não pude deixar de notar a doçura de Pietra. Até então, não havia tido a oportunidade de conhecê-la bem. Naquele momento, eu pude enxergar o que Heitor tinha dito a caminho dali. Ela realmente transmitia algo diferente, sua serenidade e delicadeza me transmitiram paz.

Percebi que Rafael se ausentou da mesa que estávamos para atender ao telefone. Quando retornou me chamou para conversar em particular. Levantei-me e juntos nos direcionamos a um local mais isolado.

– Acabei de receber uma proposta, acredito que seja interessante para você. – anunciava meu amigo com empolgação, enquanto guardava o celular no bolso.

– Proposta? Mas Rafael, você sabe que agora mal tenho tempo para respirar! Minha agenda está totalmente dividida entre a novela e o DVD, fora o comercial de perfume que vamos gravar.

– Calma, Julian! Serão só algumas horas na próxima quarta. Eu vou conversar com Edgar e dizer que você terá esse compromisso na parte da manhã, mas que logo após nós iremos para a locação.

– Afinal, desembucha homem! Que compromisso é esse?

– A coordenadoria de marketing do Shopping Centro Santa Fé está com uma programação especial para o Dia Internacional da Mulher. Na parte da tarde ocorrerão palestras sobre saúde e moda, mas perceberam que precisavam de uma atração maior e querem promover uma manhã de autógrafos de Julian Rivera.

– Uma manhã de autógrafos? Isso parece legal! – Animei-me.

“Depois daquele incidente com Samantha no dia da primeira gravação, fiquei tão sem graça com as minhas fãs e ainda não tive tempo e nem cabeça para me desculpar.”  – Pensei.

– Então, pensei que dessa forma, será possível você se redimir. – Parecia que ele ouvia os meus pensamentos.

A proposta só melhorou minha noite. Precisava me desculpar pelo vexame da minha ex- namorada com minhas fãs. Esse seria o momento perfeito! Não teria nada mais apropriado do que um contato direto com elas. Edgar não se opôs, até porque ele percebeu o quão chateado eu fiquei com o incidente da gravação. Claro que para a novela era oportuno o meu entrosamento com o público, entretanto o meu interesse não se tratava de pura conveniência. É prazeroso receber esse carinho verdadeiro! Sei que elas se aproximam de mim por admiração e não por interesse ou algo semelhante a isso. E sempre que houver alguma oportunidade de retribuir, eu farei.

Na manhã seguinte, acordei cedo e fui para casa dos meus pais. Tomamos café sentados  à mesa e percebi que meu pai estava bem mais maleável, provavelmente devido a alguma conversa que teve com minha a mãe. Se bem a conheço, certamente deve ter pedido que me apoiasse nessa nova fase, e sem dúvida eu aprendi a lição. Minha família sim deveria ser minha prioridade. Eles que me educaram, me amaram incondicionalmente e na primeira paixão que vivi, os larguei de mão. Acho até que se fosse eu no lugar deles, me trataria com mais frieza. Eu merecia desprezo e eles me acolheram de volta de bom grado. Isso só confirmava ainda mais o arrependimento pelas escolhas erradas.

Passei quase todo o domingo com eles e percebi que cada vez mais meu pai cedia às minhas conversas e brincadeiras. Ele gosta de aparentar ser um homem severo e tenta manter essa pose para os de fora, porém eu o conheço bem e sei que é tudo uma grande fachada. Mesmo sendo um homem de negócios e vivendo rodeado de trabalho, sempre teve a preocupação de estar presente e nunca deixou que o seu trabalho interferisse em nossa relação como família. Minha mãe diz que eu me pareço com ele, mas a verdade é que eu gostaria de parecer. Ele é o meu maior e melhor exemplo de ser humano e tem minha total admiração e respeito.

Saí da casa dos meus pais à noite para me encontrar com Heitor. Fomos a um pub bem frequentado para conversar e beber. Não podíamos exagerar, pois na manhã seguinte as gravações começariam bem cedo. Era realmente estranho estar livre e desimpedido de novo. Observava Heitor cumprimentar as mulheres no bar e aquilo ainda parecia errado pra mim, como se traísse alguém. Comecei a achar que não me adaptaria mais a ficar só e que tinha perdido um pouco o jeito de me aproximar para azarar alguém.

– O que há com você, Julian?

– Nada. Não tem nada de errado não, acho que só estou um pouco cansado.

– Deixa disso! Sabe que não me engana. Está pensando na ruivinha insana?

– Não estou pensando em ninguém, Heitor. E obrigado por falar dela, está ajudando muito.

– Desculpa! Não quis irritá-lo, também não precisa ficar assim.

– Eu que peço desculpas! Eu estou aqui com você, sei que vim para me distrair e espairecer, mas ainda não consegui me libertar dessa história toda. Estou pensando nela sim, achei muito estranho o fato dela não estar em casa ontem.

– Julian, desculpa, meu amigo, mas eu preciso te falar. Acabou! Siga sua vida que, provavelmente, é isso que ela está fazendo. Do jeito que as coisas acabaram entre vocês, não duvido nada que ela já esteja namorando com outro. Do jeito que é louca, você tem se preparar para qualquer coisa. Dela você tem que esperar sempre o pior.

– Que isso, Heitor! Também não é para tanto! Eu sei que ela é um pouco impulsiva, mas nós vivemos uma história, não foi um rolo qualquer.

– Ok, amigo! Não vou falar mais nada sobre ela, até porque não te trouxe aqui para isso. Agora dê uma olhada ao redor, olha quanta mulher bonita! Você sabe que consegue conquistar qualquer uma facilmente. Você é o Julian Saldanha, meu amigo! Vamos ficar sentados aqui a noite toda?

– Heitor, hoje não é meu dia. Não se preocupe, vou acabar essa dose de mezcal e vou para casa. Eu preciso de um tempo, ainda está muito recente para mim. Você entende?

– Eu poderia até insistir para que você ficasse um pouco mais, mas respeito o seu momento. Teremos outras oportunidades. Assim que você melhorar dessa apegação toda, nós marcamos outra saída.

Não pude discordar, estava realmente apegado demais ao passado. Ao sair dali, minha vontade foi de sumir. Sentia-me dentro de uma montanha russa: Uma hora estava no pico, feliz e animado; outra hora estava lá embaixo, depressivo e triste. Não conseguia entender toda aquela “bipolaridade” recente. Dirigi até a porta do prédio de Samantha, porém não tive coragem de sair do carro. Se Heitor visse o que eu estava fazendo, com toda certeza me mataria. Fiquei ali, parado durante quase uma hora, com um turbilhão de pensamentos em minha mente. Eu sentia falta dela, contudo sabia que se voltasse atrás ela exigiria que eu saísse da novela e isso eu não faria. Não queria que fosse assim, mas era estranho ter que me acostumar com sua ausência.

Fui para casa, deitei na cama do jeito que estava, e apaguei. Acordei por volta das cinco horas da manhã e não consegui mais dormir. Faltava muito para o horário das gravações, aproveitei o tempo para acessar meus e-mails e estudar mais um pouco as cenas que gravaria naquele dia.

Estava ansioso para os autógrafos de quarta-feira. Felizmente, minhas segunda e terça-feira foram de muito trabalho e com isso tive pouquíssimo tempo ocioso. Na nova fase em que me encontrava, ocupar o meu tempo caía como uma luva. De certa forma, contribuía para pensar menos em Samantha. E como chegava excessivamente cansado, ficava menos tempo acordado em meu apartamento e não me sentia tão sozinho.

Na terça à noite, quando cheguei em casa, depois de ter passado o resto da tarde no estúdio com Rafael, decidi divulgar o evento para os meus fã-clubes nas redes sociais. Eu estava muito feliz, pois sabia que rever minhas queridas fãs seria quase como uma injeção de ânimo.

Capítulo 11


Créditos:

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Debora Page

Texto: Debora Page – @escritora_deborapage

Edição: Juliana Peterson – @julianapeterson22

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