Además de las Posibilidades – Capítulo 8 – “Lección del día”

Lección del día

Como de costume, fui o primeiro a acordar. Coloquei a discografia da banda Camilla para escutar enquanto adiantava o café, precisava chegar cedo ao set. Aproveitei que Samantha ainda dormia para checar as redes sociais e responder ao máximo de fãs que conseguisse, mas pouco depois ela acordou. Mexi no e-mail para disfarçar, no intuito de não começarmos a discutir tão cedo. A coragem ainda não vinha para contar sobre a cena que faria. Tomamos café e nos despedimos no estacionamento, ela iria para a academia e eu para a emissora.

Gravei algumas tomadas com Heitor e Pietra e, logo depois, me dirigi para o camarim. Enquanto trocava de figurino para a cena com Pâmela, Samantha chegou. Fiquei nervoso, cheguei a suar frio. Queria falar de forma que amenizasse o problema, o qual certamente ela criaria. Porém, na verdade, não tinha muito o que se fazer, a não ser colocar as cartas na mesa. Como era de se esperar, ela não facilitou em nada. Não entendia o porquê de uma ex affair minha ter sido escolhida para o papel. A verdade é que qualquer atriz com a qual eu contracenasse cenas de beijos e amassos a incomodaria. Entretanto, pela reação que Samantha tivera ao ouvir minha revelação, era perceptível que, além do ciúme, havia uma questão de ego inflado também.

Eu não podia impedi-la de assistir à gravação, pois ela poderia encarar de uma forma pior. Certamente iria pensar que algo a mais fosse acontecer ali, no meio de um set com a presença de  um monte de gente. À medida que ela me encarava em silêncio, eu me sentia totalmente de mãos atadas diante da situação. Não soube como proceder.  E quando pensei que não dava mais para piorar, ela mudou o discurso:

– Você tem que escolher de uma vez por todas, Julian!  Não posso deixar que essa mulherzinha ria de mim. Ou você exige que o Edgar Guzman troque a atriz, ou você sai dessa novela agora!

– Samantha, pare com isso! Não tem cabimento misturarmos o meu passado com a minha vida profissional. O que aconteceu entre ela e eu foi antes de te conhecer. Esse beijo é técnico, não tem por que ela rir de você se é com você que escolhi ficar.

– Beijo técnico? Faz-me rir, Julian! Vou sair por aí dando beijo técnico no primeiro imbecil que aparecer na minha frente para ver o que você vai achar.

– Por favor, fale mais baixo!

– Não me mande falar baixo!

– Samantha, essa é a minha profissão! Você precisa ser mais compreensiva. Quando me conheceu, eu já atuava e agora está sendo muito infantil com essa colocação. Está fazendo um papel ridículo. As pessoas estão olhando para nós!

Ela falava tão alto, que chamou a atenção de todos. Logo, várias pessoas se colocaram um pouco afastados, todavia na direção da porta. Talvez na tentativa de disfarçar que estavam ali para assistir ao espetáculo de Samantha.

– Não me interessa se me olham. Que olhem, não me importo! Eu já disse, Julian! E não vou voltar atrás. Ou exige agora mesmo que tire ela da novela, ou você sai.

– Não te entendo! Você acha que eu sou o quê? Não vou fazer nem uma coisa e nem outra, porque seu pedido não tem cabimento. Você deve estar me confundindo! Eu sou extremamente profissional e você sabe muito bem disso. Precisa aprender a separar as coisas.

– Eu exijo que você faça essa escolha e agora!

– Samantha, a única escolha que eu faço é manter o meu trabalho e a minha ética. Vou realizar o que me foi proposto. Eu já permiti que você interferisse em toda a minha vida, mas no meu trabalho eu não permito. Você está indo longe demais.

– Você que foi longe demais. E se eu beijasse algum ex meu… Você gostaria?

– Se sua profissão fosse a mesma que a minha, não iria me opor. Seu pai mesmo cansou de contracenar com diversas atrizes que…

– Não interessa! Eu não namoro o meu pai. Não vou aceitar isso, Julian! Ou ela ou eu. Escolha!

– Samantha, pare para pensar nas besteiras que está dizendo! Não tem sentido algum o que você está falando. Minha profissão é essa, aceitei o papel e tudo o que for relacionado a ele eu vou cumprir.

– Ah sim, claro! Ossos do ofício ficar se esfregando em mulheres por aí. Eu já entendi, Julian! Você acabou de escolher! E agora não tem mais volta.

Naquele momento, ela saiu do camarim e pude ver as pessoas começarem a se dispersar, na intenção de disfarçar novamente. Não as culpava por bisbilhotarem, sem dúvida aquela foi a pior briga que já presenciaram. Eu estava muito envergonhado, muitos funcionários viram o ocorrido e logo toda a emissora saberia. Tenho certeza que Samantha sabia que eu jamais pediria para que trocassem a atriz. Sua esperança era que eu desistisse mesmo do papel, nunca admirou minha profissão. Queria que eu vivesse como ela, às custas do dinheiro dos meus pais, preocupado somente em curtir a vida sem obrigações. Contudo, minha profissão sempre foi e sempre será a minha paixão. Não digo que é a metade de mim, pois não consigo dividir. Pra mim está tudo interligado.

 Saí do camarim em direção à praça de alimentação, ainda desnorteado. No trajeto, pude ouvir alguns comentários pelos corredores. Ótimo, eu havia me tornado o assunto do dia! Não conseguia acreditar nos absurdos que ela teve coragem de dizer. E que raiva sentia de mim mesmo pela falta de reação!

Tentava digerir aquelas palavras, a cena não saía da minha cabeça. Um milhão de perguntas passavam pela minha mente: Como ela teve coragem de ir embora? E tudo que vivemos juntos? As boas lembranças, os momentos felizes não eram importantes para ela? Eu tinha que ignorar e pronto? Perdi o chão! Parecia que tudo estava a desmoronar. Quando minha vida havia se tornado aquela loucura toda? Será que eu perdi o controle quando ela se mudou para o meu apartamento? Não fazia sentido nenhum! Num dia ela me apoiava e no outro tentava estragar a minha carreira?

Há tempos eu pensava em como seria estar solteiro de novo e naquele momento estava ali,  a sofrer com a perda que tanto temi. Suas últimas palavras soavam como eco em minha cabeça, era difícil de acreditar. Ela era a única namorada, a única mulher por quem havia me apaixonado de verdade. Nunca tinha conseguido permanecer com ninguém e com ela eu pensei que seria para sempre, mas a partir daquele dia, me desiludi, tive a certeza de que relacionamento igual ao dos meus pais foram extintos há anos. É muito mais fácil terminar do que conversar e tentar se acertar!

Samantha não iria voltar atrás e eu muito menos. Não iria me rebaixar ao ponto de implorar para voltar. Eu estava com a razão e ela foi totalmente insensata. Não iria me desculpar como fiz outras vezes, se ela me quisesse de volta teria que me procurar.

No momento em que meus pensamentos gritavam dentro da minha cabeça, senti uma mão em meu ombro. Era Heitor. Ele não presenciou a cena desagradável, todavia soube da notícia que já chegara à cidade cenográfica em que ele gravava naquele dia. Notei que ele se espantou ao me ver com os olhos vermelhos, não podia crer que realmente eu chorava por causa dela. Percebi que ele não sabia o que dizer. Imagino que teve medo de piorar ainda mais a situação, porém eu sei que ele estava feliz. Não era segredo pra ninguém que não lhe agradava nem um pouco ter Samantha como “cunhada”.

Um abraço de irmão é sempre reconfortante. Ali, não contive o choro. Heitor só conseguia dizer que ela não merecia essas lágrimas e isso me fez chorar ainda mais. Sentou-se ao meu lado e pediu dois sucos de laranja com acerola ao vendedor da lanchonete.

– Beba isso e vê se melhora essa cara. Não dá pra pedir uma bebida com álcool, porque precisamos trabalhar. E pare com isso, a vida recomeça hoje para você.

– Às vezes eu pensava que era isso que eu queria, mas agora sinto como se tivesse perdido uma parte de mim.

– É normal você sentir falta, é muito recente, não tem nem uma hora que vocês terminaram. Você vai ver que logo vai estar bem de novo e vai voltar à ativa, irmão. Ela não é a última mulher da face da terra não. Pelo contrário, vai ver que tem mulheres muito melhores.

– Não sei, Heitor! Ela é diferente de todas.

– É sim, é diferente mesmo. Ela é louca, as outras são normais.

– Respeite o momento. Estou mal e você debochando.

– Não, isso não é deboche. Eu nunca falei tão sério. Ela é louca! Como ela teve a coragem de te pedir para desistir do seu trabalho? Você é um galã de novela, o que ela pensa afinal? Que você não vai beijar ninguém a novela inteira só porque ela quer? Essa garota é mimada e acha que todo mundo é à toa igual a ela!

– Ah, nesse ponto ela realmente pegou pesado.

– Então irmão, saia dessa depressão. Você tem muito ainda que curtir, tem uma vida inteira pela frente.

– Vida inteira nada. Já estou com 35 anos, esqueceu?

– E você esqueceu que sou um ano mais velho?

Heitor me fez rir e me senti feliz por ter o meu amigo de volta, por poder conversar com ele sem precisar desligar correndo o telefone, para que ela não se irritasse. Fomos para o set de gravação. Apesar da notícia já ter se espalhado por quase toda a emissora, Pâmela não pôde deixar de me perguntar pela minha ex. E foi então que me assumi o mais novo solteiro do ano. Ela se sentiu bastante culpada pelo término, no entanto insisti que os únicos culpados éramos Samantha e eu e desabafei que realmente foi melhor assim. Notei um sorriso em seu rosto e maldei a situação. Um homem sabe quando uma mulher está a fim. Pensei que ela tivesse entendido há anos que o nosso momento havia acabado, contudo a forma com que veio falar comigo foi muito suspeita.

– Bem, Julian, ainda acho que parte desse término foi por minha causa e estou me sentindo muito mal por isso.

– Não se preocupe, Pâmela! Eu te falei, a culpa não é sua. Ela que surtou mesmo.

– Bem, ela sempre foi surtada, só que você estava cego, acho que enfeitiçado. Não sei como conseguiu suportar tantos escândalos!

Fiquei sem respostas, sabia que ela estava certa. Edgar e Rafael também não conseguiram esconder a felicidade pelo término do meu namoro. Na verdade, acho que todos da produção. Ter Samantha por perto em todos os momentos era constrangedor e sufocante para todo mundo ali. Eu percebi a alegria das pessoas no decorrer do dia e as brincadeiras no set só aumentavam. Dava para ouvir gargalhadas, parecia que o ambiente estava mais leve. E comecei a me sentir assim também.

A cena de beijo foi realizada em algumas tomadas. Senti tranquilidade para contracenar, pois sabia que ela não apareceria por ali para acabar com o meu dia e me fazer passar mais vergonha. Ao final da gravação, Pâmela me convidou para almoçar, o que me deixou sem jeito. Como Heitor estava perto, conseguiu ouvir a conversa e não perdeu a oportunidade de se aproximar:

– Ótima idéia! Abriu um restaurante aqui perto. Bom que não perdemos muito tempo.

Acabara de fazer mais uma dívida com meu amigo, ele sempre me livrava de emboscadas como essa. Não que não me agradasse ter uma companhia como a dela, pelo contrário, ela é perfeita! Todavia, meus sentimentos estavam confusos e aquele não era o melhor momento para um encontro. Até porque, se fossemos almoçar a sós, provavelmente teria que ter uma continuação e sabe-se lá no que isso daria. Ou melhor dizendo, em qual motel. Apesar de um tempo sendo monogâmico eu me lembro bem de como eu era quando antes do namoro. E sei bem aonde esses encontros me levavam, ainda mais com ela que já havia me relacionado. De certa forma, até entendo os ciúmes de Samantha. Mas ela precisava confiar em mim acima de tudo.

Aproveitei a deixa de Heitor e fiz um convite a todos para almoçarmos juntos.  Que saudade eu estava dessa liberdade de tomar decisões e não precisar me preocupar com a opinião dela! Estava começando a me lembrar de como é bom sentir essa liberdade! O dia passou rapidamente, consegui aproveitar cada momento. O almoço com os amigos da equipe veio como uma injeção de ânimo.

Voltamos para a emissora para ensaiarmos e repassarmos os textos. Eu já não era mais o assunto em pauta e sim a festa de inauguração da novela. Empolguei-me, afinal essas festas são fundamentais para o entrosamento do elenco e o melhor: seria a minha primeira festa como solteiro.

Terminei o ensaio um pouco mais cedo e segui direto para o estúdio com Rafael. Notei que ele teve mais liberdade de falar comigo, estava diferente. Começou a apresentar mais ideias a respeito das gravações dos clipes e claro que a ausência de Samantha era o motivo daquela mudança de comportamento. Isso me fez repensar. Era o momento de reorganizar a minha vida. Eu permiti que as pessoas se afastassem de mim por causa dela. Deixei os meus pais em último plano e eles precisavam saber o que aconteceu. Eu os devia milhões de desculpas, entretanto não imaginava uma boa reação, principalmente do meu pai. Também não podia esperar que ele fingisse que estava tudo bem e esquecesse da minha ausência. Tinha esperança de visitá-los assim que saísse do estúdio. No entanto, o trabalho rendeu muito e decidimos finalizar as gravações de duas músicas. Não quis ligar, não faria sentido falar tudo por telefone.

Foi estranho chegar em casa e ver que suas roupas não estavam mais no armário. Da mesma forma que passar a noite sozinho não foi muito agradável. Senti como se a cama fosse grande demais. Agarrei-me a um travesseiro no intuito de dormir. Claro que isso não substituiria a presença dela ali ao meu lado, mas foi uma tentativa de amenizar aquela solidão. Naquele silêncio, eu pude me lembrar de tudo que aconteceu e parecia um filme em minha mente. Pensava no que ela poderia estar fazendo e suas lembranças me torturavam. Levantei e liguei o rádio. Nem prestei muita atenção nas músicas, só precisava cessar aquela calmaria, que estava me fazendo mal e somente assim consegui pegar no sono.

Na manhã seguinte, não tomei café. Acordei cedo e fui para a casa dos meus pais. Para a minha surpresa os dois estavam na sala. Minha mãe assistia a um programa sensacionalista na TV, enquanto meu pai lia o jornal.

 – O que houve? Ela terminou com você e agora você lembrou que tem uma família?

Aquelas palavras me atingiram em cheio. Era para eu ter contado, eu sim tinha esse direito.

Quando olhei para a TV, a foto de Samantha saindo de seu apartamento com roupa de academia estava de fundo. E era o assunto dos apresentadores. Fiquei sem reação, não soube o que dizer. Meu pai se levantou do sofá, empurrou o jornal para mim e saiu em direção à cozinha. Então minha mãe começou a falar:

– Senta aqui do meu lado, meu amor, e me conta o que aconteceu.

– Mãe, me perdoe! Eu deveria ter contado ontem mesmo por telefone, mas preferi vir aqui pessoalmente. Eu precisava ver vocês, pedir perdão.

 Ao mesmo tempo que eu falava, prestava atenção na TV. Soltaram um vt que mostrava Samantha adentrando na academia. Eu odiava aquela roupa que ela vestia e dessa vez sim, morri de ciúmes! Uma calça totalmente colada no corpo, que mostrava bem as suas curvas e enfatizava ainda mais os seus glúteos. Em vez de colocar uma blusa maior que tapasse um pouco, ela resolvera usar um mini bustiê com decote na frente. O operador da câmera, por sua vez, fez questão de dar um zoom. O clima estava meio frio, não tinha necessidade de ficar tão à mostra assim.

– Pare de olhar para a TV e olhe para mim, Julian! O que foi que aconteceu? Sou sua mãe e tenho o direito de saber!

Contei tudo a ela e aproveitei para pedir perdão mais uma vez. E claro que me aproveitei de seus abraços carinhosos. Minha mãe é maravilhosa! Como pude ficar tanto tempo distante? Ela não merecia isso.

Tomamos café sem meu pai, pois ele já tinha saído para o escritório e não quis muito assunto comigo. Só depois que parei para ler o jornal que ele havia empurrado para mim. Samantha e eu ocupávamos toda a capa. Parecia que eles não tinham mais matérias para publicar. Repassei as folhas e estávamos em mais duas. Fizeram um resumo de nosso relacionamento. Tinha fotos que nem eu conhecia. E para melhorar a situação, o nome da Pâmela apareceu como um possível pivô da separação. Aquilo acabou com a minha manhã, me senti invadido. Nunca vi tantas mentiras em tão pouco espaço. Como podiam fazer aquilo? Usarem calunias para denegrir a imagem das pessoas para subirem na vida! Se o trabalho deles era fofocar e nos perseguir por todo o lado, por que não divulgavam verdades? Podiam buscar os fatos em vez de escreverem o que bem entendiam. A ira tomou conta de mim e minha mãe percebeu isso sem que eu precisasse falar. Ela até me ofereceu um copo de suco de maracujá para tentar me acalmar, contudo não adiantou.

 Saí da casa dos meus pais diretamente para a emissora. Não quis ir para casa, imaginei que lá haveria repórteres à minha espera. Antes de abrirem o portão para que eu entrasse, avistei atrás de uma moita um paparazzo. Não me contive, abri a porta do carro e fui para cima dele. Minha vontade de matá-lo era grande! Contudo, apesar de tudo, sou muito controlado e para não descontar nele que era muito mais baixo que eu, peguei a câmera de sua mão e taquei longe. Percebi na hora que a lente se espatifou em diversos pedaços e quando olhei para ele, me arrependi amargamente do que eu fizera. O menino era novo, aparentava ter no máximo uns vinte anos e me olhava com uma feição assustada. Começou a chorar enquanto pegava partes da câmera que havia se espalhado para todos os lados. Senti-me um monstro!

– Me desculpe, eu não devia ter feito isso. Eu tive uma manhã difícil e descontei tudo que me fizeram em você.

– Perdão, Senhor Julian! Eu não sabia que não podia fotografá-lo. Não queria te irritar.

– Você é novo na sua profissão?

– Sou sim, sou estagiário. Comecei há uma semana.

– E a câmera é da empresa ou sua?

– Era minha. Agora eu terei…

Interrompi na mesma hora e pedi que entrasse no carro, precisava consertar as coisas. Ele parecia ter medo de mim, porém concordou. Dei ré e fui até a uma loja de artigos eletrônicos mais avançados. Pedi para que ele escolhesse o que precisasse dali. Ele parecia não compreender o que eu falava. Vi seus olhos se encherem de lágrimas e ele permanecia parado. Então pedi à vendedora que me desse um equipamento completo, o melhor da loja, já que eu não entendia muito do assunto. Ele fez algumas modificações na escolha da vendedora e eu efetuei o pagamento.

– Espero que me desculpe de verdade! – Falei um pouco envergonhado da minha atitude impulsiva de espatifar a câmera do menino.

– Que nada, Senhor Julian! Eu tenho é que agradecer por ter quebrado a minha câmera.

O garoto tinha senso de humor e eu fui obrigado a rir.

– Qual o seu nome?

– Guillermo Rodriguez.

– Foi um prazer conhecê-lo! Só te peço uma coisa, Guillermo. Use sua profissão sempre para o bem. Não tente crescer às custas de mentiras. Não use ninguém para fazer o seu nome conhecido. Procure pesquisar antes de fazer uma matéria sobre a vida de alguém. Não faça igual a muitos por aí. Se você for bom no que faz, vai se destacar. Pode tardar, mas não falha. A vida o fará grande!

– O prazer foi todo meu, Senhor Julian! E muito obrigado! Posso tirar uma foto com o senhor?

– Só se parar de me chamar de senhor. Não sou tão velho assim!

Parece que toda a minha raiva ficou naquela câmera que quebrei. Esse menino me fez perceber que nem todos são iguais. Não podia julgar a profissão por causa de alguns aproveitadores.

Tiramos a foto, despedimo-nos com um aperto de mão e logo me dirigi para a Televisa, ainda um pouco atordoado. Havia pensado na possibilidade de desperdiçar todo o meu dia de folga e ficar lá até dar a hora da festa só para fugir das câmeras. Entretanto, essa ideia não fazia o menor sentido! Então resolvi encará-los e fui para casa. De fato o meu prédio estava cercado de fotógrafos. Esses sim são os verdadeiros “ossos do ofício”, não ter privacidade em pleno término de relacionamento. Uma coisa estava certa, eu não daria entrevistas. O porteiro, logo que viu meu carro, acionou para que o portão da garagem abrisse, mas eu não conseguia sair do lugar. Tinha medo de atropelar alguém. Buzinava pedindo passagem, todavia era totalmente ignorado. Só ouvia milhões de perguntas e barulhos de flashes. Abri a janela o suficiente para conseguir falar.

– Por favor, respeitem o meu momento. Não vou dar entrevistas, eu só quero passar. Será que podem me dar licença, por favor?

Se Rafael estivesse comigo, aquilo com toda certeza não aconteceria. Ele sempre tem domínio da situação e saberia como proceder. Meu maior receio era de me alterar, não conseguir me conter e depois usarem isso contra mim nos jornais. Procurei manter toda a calma que eu não tinha.

– Julian, só uma entrevista rápida. Não vamos tomar muito o seu tempo. – Falou uma moça quase se debruçando em cima do carro.

– Por favor, saiam! Eu não quero perder a paciência. Não sou de negar entrevista, só não estou em um bom dia, graças à matéria sensacionalista que algum dos seus amigos publicou no jornal.

Fechei o vidro do carro e, por incrível que pareça, eles cederam e se afastaram para que eu entrasse. Chegar em casa nunca tinha sido tão bom! Como faltava muito para a hora da festa, resolvi cozinhar, coisa que não fazia há muito tempo.

Capítulo 9


Créditos:

WhatsApp Image 2020-05-07 at 2.56.37 AM
Debora Page

Texto: Debora Page – @escritora_deborapage

Edição: Juliana Peterson – @julianapeterson22

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