Inácio – Capítulo 3 : O Problema Agora É Outro

O Problema Agora É Outro

As coisas sempre estiveram sob o seu controle. Tudo, exatamente tudo, estava sob seu controle. Ele ainda havia repetido um milhão de vezes para a maldita mulher que não estava flertando com o atendente do restaurante, que não fazia sentido nenhum as acusações de olhares tortos, que ela estava criando situações inexistente na própria cabeça, ficando louca; teve até que levantar a voz em um determinado momento para que ela se calasse, mas o efeito dominó, lentamente, foi acontecendo diante de seus olhos. Parecia o trailer de um filme de terror: o rapaz se aproximando da mesa para retirar os pratos já utilizados da entrada, a reação inesperada da mulher, o sangue vermelho vivo amargando o branco da camisa, a gritaria, o alvoroço, o choro de Bethânia, o gerente do restaurante ajudando os enfermeiros a empurrarem uma maca com o corpo de Lucas encima para dentro de uma ambulância com letras escritas Hospital Santa Fé nas laterais da porta, faróis de viaturas, sua empregada com os olhos arregalados chegando com o motorista, seus berros com Ilsa na delegacia, o delegado perguntando quanto ele estava disposto a pagar para livrar a cara da mulher psicopata dos jornais do dia seguinte, a sua virada de rosto quando Ilsa quis beijá-lo… aconteceu tudo de forma tão rápida. Um turbilhão de pensamentos foram surgindo à sua mente sem que ele conseguisse apertar o botão de pausar e analisar cena por cena. Precisava ligar para Lena e ver como Bethânia estava.

— Alô, Lena. Tudo bem? Como está Bethânia?

— Oi, Sr. Inácio. Estou bem, obrigada. Bethânia está extremamente quieta, não quer falar com ninguém, não quer comer, mas estou tentando fazer o que eu posso. O senhor ainda está na delegacia?

— Não, acabei de sair de lá, estou em uma cafeteria agora. Daqui a pouco Ilsa está chegando aí, a coloquei em um taxi. Não se preocupe com relação ao que aconteceu, eu já resolvi o problema, tive que pagar um bom valor para que ela não fosse presa. Ainda tenho que passar no hospital para ver como está o rapaz. Me deixa falar um pouquinho com a Bethânia, por favor.

— Claro, Sr. Inácio, só um momento, já passo pra ela.

— Alô, papai.

— Oi, princesa, aqui é o papai. Eu estou cuidando da mamãe, tá bom? Não precisa se preocupar, daqui apouco ela já vai chegar aí. Você não está com medo dela, né? Dá um abraço na mamãe quando ela chegar, tá bom?

— Tá bom, papai. Não estou mais com medo. Eu cuido dela, pode deixar. E o moço do restaurante, papai, como ele está? A mamãe machucou muito ele?

— Ele está bem, filha, não precisa se preocupar, o papai está cuidando dele também.

— Por que a mamãe fez aquilo, papai?

— Eu não sei, filha. Foi um acidente, ela não queria fazer aquilo.

— Papai, ela vai fazer isso com a gente também?

— Não, minha linda, a mamãe nunca machucaria nem a mim nem a você. Não precisa ficar com medo. Foi só um acidente, o papai já não disse? Agora presta atenção: a tia Lena vai continuar cuidando de você até eu chegar, tudo bem? Come direitinho e não a desobedeça. Agora passa o telefone para ela, por favor. O papai te ama. Beijos.

— Tá bem, papai. Eu também te amo. Beijos.

— Pois não, senhor?

— Lena, quando a Ilsa chegar, não faça perguntas, não questione nada, apenas prepare um banho quente para ela e, se quiser, pode sair mais cedo hoje. Certifique-se de que Bethânia tenha comido direitinho e a deixa no quarto. Vou fazer o possível para voltar para casa antes das sete da noite.

— Não se preocupe, Sr. Inácio, eu posso esperar o senhor chegar. Falo com Juliana que vou precisar ficar mais tarde hoje. Ela já é bem grandinha, consegue cuidar dos meus outros pequenos.

— O.k., Lena, muito obrigado. Assim que eu chegar te libero. Tchau, tchau.

— Tchau, Sr. Inácio.

Tinha que ver como Lucas estava. Pesquisou no Google e rapidamente achou a localização do Hospital. Não queria nem pensar na possibilidade dele estar morto, seria péssimo para a sua imagem. Conseguia até imaginar a legenda embaixo da sua foto e da mulher em todos os jornais: “Ilsa Loila, mulher do bem-sucedido empresário Inácio Loiola, foi presa após esfaquear e matar um garçom na cidade de São Paulo”. O nome da sua empresa, a Inácio Minerais, provavelmente também estaria na lama no dia seguinte.

Apesar da tragédia, pensar em Lucas o deixava excitado. Durante o almoço, se recordou que o desejo era tão grande, que tentou, por diversas vezes, se levantar e ir até o banheiro se masturbar, mas relutou, pois a mulher e os clientes provavelmente perceberiam o volume de seu pênis ereto na calça. Aquela boquinha rosa, aquele cabelo loiro… Lucas fez os seus desejos mais íntimos acordarem. — Filho da puta, sussurrou.

O rapaz era bem parecido com outros meninos mais jovens que ele já era acostumado a pegar em aplicativos de pegação. A maioria não cobrava para transar com ele, mas alguns garotos de programa com o corpo definido e o rostinho bonito pediam uma certa mixaria, que não passava de cento e vinte reais por hora. Era sexo barato e fácil. Ficou se perguntando se Lucas também era desses, que se prostituía por pouco dinheiro.  Levantou a mão para chamar o garçom e pedir a conta.

— Mais alguma coisa, senhor? — perguntou o garçom da cafeteria.

— A conta, por favor.

— O.K., só um minuto, já trago.

— Muito obrigado.

Dentro do carro, já com o GPS ligado e a caminho do Hospital Santa Fé, ficou refletindo sobre como tudo na sua vida era moldado através de mentiras e falsas morais. Não era um homem bom e exemplar como todos a sua volta achavam que ele era. Havia matado o próprio pai e a própria mãe a facadas dentro da antiga casa no interior de Minas Gerais. Precisou fazer isso para vender o grande terreno que ainda estava no nome deles. Não se sentiu mal por isso, pois os pais já estavam velhos, o terreno não era tão precioso assim, só tinha barro, que não era tão valorizado, e ele precisava do dinheiro com urgência para investir na sua empresa de minérios de ferro. Foi duro ter que mentir para a polícia que dois homens foram até o sítio e assassinaram o casal de idosos. Na verdade, foram três: ele também se incluía nessa conta com mais os outros dois que havia contratado em São Paulo para executar o crime.  Estava tudo planejado, eles iriam ajudá-lo, confessariam o crime, e depois Inácio os tiraria da cadeia e pagaria uma boa quantia para eles ficarem calados e longe da sua vida. Foi exatamente o que aconteceu. Nem mesmo a polícia nem os outros familiares desconfiaram de nada. Depois disso, as coisas foram acontecendo conforme ele queria. Os negócios iam crescendo e a única coisa que lhe faltava era uma mulher de fachada e uma criança para que todos pudessem vê-lo como um homem de família, um cidadão de bem.

Conheceu Ilsa em um evento corporativo da empresa. Ela estava lá porque fazia parte da equipe de produção do evento. Não sabia direito o cargo da mulher, mas também não importava. Ela era bonita e parecia ter sido tirada diretamente de uma capa de revista. Perfeita para ser sua esposa, pensou. Resolveu investir e a convidou para um jantar. Acabou descobriu que ela era uma das sócias da tal empresa. Ela se apaixonou por ele tão rápido, que ficou seriamente pensando no que as pessoas diziam sobre dinheiro atrair dinheiro. Pra selar a união: Bethânia. A chegada da filha foi um dos momentos mais lindos da sua vida, até pensou em parar de sair com outros homens escondidos e levar uma vida mais correta, porém negar os próprios desejos é deixar de alimentar a própria alma.

Foram tantos parceiros ao longo da vida. Todos no sigilo e distantes de qualquer sinal possível que pudesse entregar suas aventuras. Nem mesmo quando se envolveu com um funcionário da própria empresa foi descoberto. João trabalhava na fábrica, era um negro lindo, com um corpo bonito e tinha pouco menos de trintas anos, mas teve que parar de manter relações sexuais com ele, porque o escândalo de uma vida sexual dupla, com um outro homem ainda por cima, caso viesse à tona, poderia afundar seu nome e da sua empresa. Para se prevenir, resolveu dar uma boa grana para o rapaz e arrumou um novo emprego para ele em uma filial no Mato Grosso do Sul. Sempre foi muito cuidadoso, o que aconteceu com Lucas foi um descuido que, por sinal, daria muita dor de cabeça ainda.

O sol já estava baixando quando chegou ao hospital. Eram quase seis horas da tarde. Deixou o carro no estacionamento e se dirigiu à recepção para tentar ver como Lucas estava. Uma moça bonita e uniformizada atendia um telefone atrás de um balcão de madeira. No seu crachá estava escrito Letícia Neves, recepcionista do Hospital Santa Fé. Esperou que ela terminasse a ligação e perguntou:

— Olá, boa tarde. Tudo bem? Eu gostaria de saber se posso ver um rapaz chamado Lucas que veio para este hospital hoje por volta das duas horas da tarde. Ele sofreu um acidente na hora do almoço em um restaurante chamado Crisales, que fica na zona sul da cidade. O gerente de lá me falou que ele foi encaminhado para este endereço. Ele é garçom. Loiro, magro…

— Sim, senhor, o nome do rapaz é Lucas Miranda da Silva. Ele está na UTI em estado grave desde que chegou. Está respirando por aparelhos. O que o senhor é dele, por favor?

— É… quando o acidente aconteceu, eu estava lá. Eu não sou parente dele nem nada, porém me sinto na obrigação de acompanhar o caso e ajudar da melhor forma possível.

— Neste caso, eu tenho que ver com o meu supervisor. Não posso permitir a sua entrada sem a concessão dele. Só um minuto, por favor. Com licença.

Era óbvio que esse tipo de coisa aconteceria. Não podia simplesmente falar que a idiota da mulher havia esfaqueado Lucas e por isso ele que ele queria tanto ver as marcas que ela tinha deixado no corpo do menino. Ficou na recepção esperando a resposta. Enquanto isso, um homem saia pela porta do banheiro e vinha na sua direção. O reconheceu rapidamente, era o Sr. Alberto. Tomou um susto, a princípio.

— Oiii, Sr. Alberto. Tudo bem? Como Lucas está?

— Felizmente, vivo. Apesar, é claro, de estar com o estômago perfurado. Provavelmente terá que usar uma bolsa de colostomia por algum tempo.

— Sr. Alberto, eu nem sei o que dizer, eu sinto muito. Não sei porque Ilsa fez aquilo. Eu…

— Eu acho que você deveria ter uma conversa bem franca com o seu advogado. Isso vai lhe custar muito dinheiro ainda. Eu vou fazer o for possível para ferrar a sua esposa.

— Eu não estou dizendo que ela não é culpada.

— Ela tem alguma chance de ser inocente?

— Você sabe com quem você está falando?

— Com o marido de uma criminosa.

— Foi um acidente.

— Foi um crime.

— Quanto você quer para não levar isso adiante?

— Eu não quero dinheiro nenhum. Eu quero justiça.

— Eu posso pagar um valor alto, você sabe disso.

— Dinheiro nenhum neste mundo compra a minha dignidade. Nenhum, está escutando bem?

— Será perda de tempo. Eu tenho bons advogados. Você nunca ganharia um processo de mim, mesmo estando certo.

— Isso é o que nós veremos.

Quando a recepcionista voltou para a sua mesa, primeiramente chamou o Sr. Alberto para esclarecer como estava o estado de Lucas, depois pediu para que Inácio aguardasse mais um pouco, pois precisava liberar primeiro a subida do Sr. Alberto que havia ficado a tarde inteira no hospital acompanhando o quadro do rapaz, mas que ele também conseguiria ver Lucas, segundo orientações do seu supervisor.

O único pensamento que vinha a sua cabeça era: “terei que matá-lo também?”. Mais um crime para o seu currículo de assassino. Se não o matasse, complicaria ainda mais a sua situação. A merda do garçom estava saindo muito mais caro do que ele pretendia gastar no almoço.  Esperou o Sr. Alberto subir e foi até o balcão falar com Letícia que estava muito tarde, que ele preferia voltar no dia seguinte. Agradeceu a atenção e foi até o estacionamento. Chegando lá, ligou para um número que ele não ligava fazia bastante tempo.

[Continua…]


Créditos:

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Luiz Vieira

Texto/Edição: Luiz Vieira – @luizim_7

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