Inácio – Capítulo 2 : O quarto escuro

O quarto escuro

Atordoado com toda a situação, Lucas resolveu ir até a cozinha para beber um pouco de água e fugir dos olhos indiscretos de Inácio. Os pratos principais demorariam a ficarem prontos, e ele ainda tinha mais alguns minutos para tentar entender o que estava acontecendo. Quando entrou, não deu muita bola para o que os cozinheiros do chefe Daniel estavam falando sobre si, que já tinha se acostumado com as chacotas diárias dos colegas de trabalho que adoravam chamá-lo de Gisele Bicha; um apelido “carinhoso” que havia recebido por andar sempre desfilando no salão.

Já haviam passado mais de uma hora que Inácio e sua família tinham chegado no Crisalis, e Lucas não conseguia tirar a terrível pergunta do ilustre cliente da cabeça: “Ah, rapaz, podemos ter uma conversa depois?”. Era como se a frase tivesse aberto a porta de um quarto escuro e Lucas não soubesse ao certo se deveria ou não entrar. Enquanto estava parado no bebedouro da cozinha pesando sobre a situação desconfortável com Inácio e sua mulher, nem se deu conta de quando o Sr. Alberto havia entrado ali.

— Lucas, finalmente te achei! O que você está fazendo aqui? Era pra você estar lá fora, no salão, o Sr. Inácio e sua família não podem ficar sem um garçom exclusivo.

— Inácio. Apenas Inácio. Segundo ele, chamá-lo de senhor o faz sentir velho. Chefe Daniel, por favor, já pode liberar os pratos principais.

— O.k., Gisele! Quer dizer… Lucas!

— Haha, estou morrendo de rir! Com a sua licença, Sr. Alberto.

— Apenas, Alberto, por favor. Senhor faz-me sentir velho.

— Deus, é contagioso isso?

Ao voltar para o salão, Lucas preferiu ficar um pouco próximo ao bar. Ilsa o encarava como uma pantera. Era como se não existisse mais ninguém ali além dos dois. Ao aproximar-se da mesa para retirar os pratos já usados da entrada, Lucas foi surpreendido com uma estocada de faca bem no meio da barriga. Quando se agachou para pegar o guardanapo e estancar o sangue, a mulher deferiu mais duas estocadas em suas costas. Sua camisa branca rapidamente ganhou tons de um vermelho vivo. O mundo começou a girar ao seu redor e os sons do ambiente se misturavam em meio a gritos, “I Put a spell on you” e o choro de uma criança. A única palavra que saiu da boca de Lucas foi: Inácio.

Em seus sonhos, Lucas enfim tomou coragem e adentrou o quarto escuro. Inácio estava lá, sentado em uma poltrona e perto de uma lareira olhando para um álbum velho de fotografias. O ambiente era uma grande sala espaçosa, que serpenteava até uma escadaria de madeira que dava acesso ao segundo andar da casa. Tudo extremamente acolhedor e singelo. Na parede, uma enorme estante com livros e, no teto, um belíssimo lustre de cristal; mas, ao se aproximar um pouco mais de Inácio, algo muito estranho chamou a atenção de Lucas: as mãos dele estavam sujas de sangue. Notou também que a sua presença ali não era notada por Inácio, era como se ele fosse um fantasma.

Resolveu chegar mais perto e se assustou, pois nos lugares que eram para existir os olhos de Inácio, agora tinham apenas dois buracos negros. Inácio estava chorando e olhando para uma fotografia antiga de uma mulher jovem com um homem ao lado e uma criança pequena no colo. Tentou colocar as mãos em seus ombros, mas elas simplesmente atravessaram o corpo dele. Sentiu-se impotente.

Olhou novamente para as escadas e, finalmente, decidiu subi-las. Cada degrau lhe dava uma sensação ruim no peito, era como se algo muito assustador o tivesse esperando lá em cima, até pensou em desistir da ideia de seguir adiante. Ao olhar para trás, viu que Inácio continuava lá, sozinho, chorando, sentado na poltrona e olhando para a fotografia. Parecia não haver nada no mundo que curasse tamanha tristeza e dor. Respirou fundo e continuou a subir as escadas. Lá em cima, um corredor se materializou a sua frente e era possível enxergar agora dois quartos com portas idênticas. Um ar frio e fúnebre preenchia o ambiente.

Lucas avançou devagar e resolveu atravessar primeiro a porta do quarto que estava à sua esquerda. Lá dentro, tudo parecia tão acolhedor. Era um quarto de criança, com um guarda-roupa pequeno, uma escrivaninha ao lado da cama e um avião de brinquedo pendurado no teto. — Um quarto de menino, pensou. A cama estava com um lençol branco velho e com algumas manchas de sangue. Era como se alguém tivesse – desesperadamente – tentado limpar as mãos sujas ali. Lucas sentiu novamente o mundo girar ao seu redor e precisou controlar a respiração e os batimentos acelerados.  Atravessou de maneira abrupta as paredes do quarto e ficou alguns minutos no corredor se acalmando.

Parecia estar vivendo dentro de um verdadeiro filme de terror. Primeiro, as mãos sujas de Inácio e, agora, o lençol do quarto. Afastou todos os pensamentos ruins da cabeça, aquilo não podia estar acontecendo. Fechou os olhos e pressionou com força as pálpebras. Se aquilo fosse um sonho, queria acordar, não estava aguentando mais o pesadelo. Ao abrir os olhos novamente, estava agora diante da outra porta, à sua direita. Seu coração começou a bater de forma desordenada novamente. Ele não queria entrar, mas algo mais forte insistia para que ele entrasse. Uma voz sussurrava ao seu ouvido: “você precisa ver, você precisa entrar”.

Primeiro, ele atravessou os braços e, bem devagar, foi atravessando o restante do corpo. Dentro do quarto, a cena de um crime: um senhor de idade e uma senhora estavam encharcados de sangue na cama de casal. As doçuras de seus rostos foram roubadas pelos gritos de socorro dos olhos. Os pensamentos corriam desordenadamente em sua cabeça, era como uma barragem que estava se enchendo rápido demais com a chuva forte e corria o risco de a qualquer momento transbordar. Ele tentava, a todo custo, afastar a ideia de que Inácio havia cometido aquela barbárie, mas as provas estavam todas ali. — Se não foi ele, quem seria então?

De repente, um sentimento de pânico apoderou-se de seu corpo, e ele começou a se debater no quarto e a gritar descontroladamente. Quando retomou a consciência novamente, viu que uma enfermeira e um médico se esforçavam para conter a sua crise. Os braços de Lucas estavam cheios de agulhas que, a cada movimento bruto que ele fazia, elas cuspiam sangue e causavam em seu corpo dores extremamente agudas.

— Xiu… xiu… acalme-se, rapaz! Acalme-se! Rápido, Rosana! O calmante, o calmante!

Capítulo 3


Créditos:

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Luiz Vieira

Texto/Edição: Luiz Vieira – @luizim_7

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